Tudo é desse mundo

Construir relações nunca esteve/estará baseado em um padrão pronto para ser aplicado em toda e qualquer interação. Simplesmente flui (aqui vou focar somente nos relacionamentos de verdade, sem considerar os abusivos).

Quando passamos a gostar de alguém que é fora do nosso círculo familiar e de amigos, a vida segue o fluxo normal, mas com um significado diferente. Eu, por exemplo, me achava avessa a afetos. Adorava dizer que era fria, coração gelado. Até que vem alguém na sua vida que muda tudo isso. Para melhor, claro.

Na bruma leve das paixões
Que vêm de dentro
Tu vens chegando
Pra brincar no meu quintal

E é aí que todos os sentimentos chegam devagarzinho no seu ouvido e sussurram: “viver é bom, sabia?”. Aquela preocupaçãozinha do bem, de saber como a pessoa está, só de ouvir a voz e sentir um negocinho bom ao ver o sorriso do outro é realmente um troço diferente. Essas sensações não são novas para mim, mas hoje são intensas. E maravilhosamente deliciosas.

Junto com elas, vem aquilo que particularmente repudio e até achava que nunca teria na vida, ciúmes. Via nesse sentimento a imagem de alguém fraco, vulnerável, inseguro, infeliz. Não queria ser essa pessoa. Então tentava ser o coração peludo que achava que era, até perceber que não, aquela pessoa nunca existiu. E não, não teria como negá-lo.

Passei então a conhecê-lo. Imaginar a pessoa que você ama em uma situação que pode colocar o monstrinho do cíume à prova sempre amargava minha boca. A sensação era de impotência, somado com tudo aquilo que não queria ser quando sentia ciúmes. O machismo tem sua (grande) parcela de culpa em tudo isso, pois cria-se o mito da mulher maluca, transtornada, possessiva, tudo aquilo que não sou e nunca fui.

Mas então o que é isso?

Ciúmes possuem várias interpretações, dependendo do prisma em que vê. Para mim, é como um espelho. Nele, via todos meus problemas e complexidades e como eu faço deles uma tempestade com tsumani em uma poça d’água.

Comecei também, a aproveitar desses terríveis momentos para botar em prática toda aquela dica de terapia: respira, calma, respira. Tá tudo bem quando tá bem. O simples fato de sentir ciúmes não vai enfatizar meus erros nem minhas qualidades. Elas estarão lá, como sempre estiveram e como sempre o outro viu em mim.

Esse negocinho indescritível chamado ciúmes mostra todas minhas fragilidades, isso é claro, mas também reforça meu afeto. Os dois são como irmãos gêmeos, muito parecidos, muito fortes e que precisam ser bem domados. Aprender a lidar com o mau e com o bom também nos torna mais… humanos.

Eu não posso exigir de alguém a perfeição, assim como o outro não pode exigir de mim a mesma coisa. Mas eu posso fazer com que meus sentimentos sejam compreendidos por mim, analisando minhas fragilidades, medos, conhecendo meus buracos. Esse campo minado só me faz mais amorosa, completa e transbordante.

Mas então o que é isso? Quem é do amor somos nós.

É meu, meu amor.

É amor meu.