Porque eu gosto do discurso e não da prática
Um ensaio sobre a cegueira intelectual
Minha rotina todos os dias é acordar, acessar o Facebook, ler as últimas notícias, checar meus e-mails, pegar o carro e ir pro trabalho. Às vezes, ainda bem, rola um happy hour com a galera na Vila Madalena.
A vida estava perfeita. Até que um dia, talvez por infelicidade, um amigo me explicou que eu não precisava dessas coisas, que ele havia lido no Facebook que tratavam-se de invenções desnecessárias.
Minha vida perdeu todo o sentido aí. Comecei a estudar a superestrutura das coisas, entender a dinâmica da mídia e da publicidade, as necessidades que eu não tenho.
A partir daí, passei a evangelizar a distribuição de renda, a ajuda ao próximo, que os pobres são pobres porque eu tenho muito dinheiro. E, assim fui, aos poucos, ensinando meus amigos, todos mente aberta, os problemas do capitalismo. A cada dia mais gente entendia que não precisamos desses bens materiais para viver e, agora, estamos propagando isso. Sei que a minha parte estou fazendo.
O mais triste disso tudo é que ainda tem gente que acha que precisa disso tudo, que merece isso tudo. Qual a necessidade de ter um carro quando a maior parte da população vive no ônibus?
Se o valor desses bens desnecessários fosse distribuído, muita gente ficaria bem alimentada e todos sairiam ganhando. Um mundo menos desigual, as ruas com menos carros.
É uma troca justa! Todos precisam ficar bem. Inclusive eu, já que ficaria muito mais fácil de dirigir meu carro por aí.
Quando será que as pessoas irão entender isso? Abrir mão de certas coisas em favor do outro?
Porque eu tenho o discurso, então estou dispensado da prática, né? É assim que funciona? Então estou no caminho errado ☹