70 anos, algumas lágrimas, orelhas peludas.

Arte por Rafael Bento

Ele nunca tinha acreditado naquele papo de que, com o passar do tempo, as pessoas começariam a nascer sem os sisos. “Nada mais determinista”, pensava ele, um darwinista convicto. Achava mesmo que eram as orelhas peludas que estavam com os dias contados na evolução humana. “Afinal, o que te incomoda mais? Uns dentes em excesso ou pelos na orelha?”, assim, para ele, eram as pessoas com orelhas cabeludas que deixariam, pouco a pouco, de passar seus genes adiante. Os sisos iam permanecer firmes e fortes dando muito dinheiro para dentistas que insistiam em encontrar problemas nos dentes dos mais ajuizados.

Por isso, ao se olhar no espelho e reparar que os cabelos, em seu grande êxodo capilar, chegavam com êxito às orelhas; não pode deixar de se sentir frustrado. Aquele era um local ruim. Retirar todos os pelos das orelhas requeria uma habilidade com as pinças, que ele não dominava e não havia ângulo que favorecesse a tarefa. Uma das poucas vaidades que tinha era a de manter as orelhas lisas; isso e perfumes de alfazema.

A pele fina e craquelada que parecia um tecido muito lavado e roto não o incomodava. Na verdade, ele via beleza nessas marcas do tempo, gostava de falar que “as rugas são a minha história rabiscada em mim mesmo”, se sentia poético ao dizer tais coisas. Além disso, ele achava ridículo tentar esconder sete décadas de história com uma ida ao centro cirúrgico para puxar a carcaça que insistia em amolecer e afrouxar. Tampouco os ralos cabelos brancos eram motivo de desgosto. Quando os fios começaram a ficar grisalhos, ele passou a se achar bastante charmoso e atraente com sua cabeleira cinza. Dava um ar de respeitabilidade sem perder um quê de juventude.

Eram as orelhas peludas que o incomodavam de verdade. E a cada ano, elas ganhavam mais fios. Ou seriam a cada mês? A noção do tempo muda quando se colecionam décadas e mais décadas de vida. Era das orelhas peludas que sua esposa sempre reclamava e rapidamente se prontificava a “limpá-las”, como chamava o afazer. Ele sabia que ela tinha um certo prazer em realizar a poda, assim como também apreciava espremer aqueles cravos das costas logo após o banho, “quando a pele ficava mais macia”.

Há algum tempo que ela era mais ausente que presente. Os raros momentos de lucidez eram sempre mal empregados com conversas sobre medicações ou como a fralda era incômoda e humilhante. Além do mais, era difícil diferenciar lucidez de devaneio. Mas ele sabia que mesmo perdida naquele amálgama de esquecimentos e desmemórias confusas, os pelos na orelha ainda eram motivo de incômodo para ela. Não era apenas o fato de achá-los feios que a inquietavam, mas sim não poder realizar a prazerosa tarefa de retirar um por um enquanto assistiam à televisão. Ele jurava que ela ainda fitava com um tom julgador para suas orelhas quando estavam peludas.

Olhou novamente no espelho e reparou que os tufos de pelos que removera há pouco mais de uma semana já voltavam a reinar na orelha direita, a mais difícil de limpar. Procurou pela pinça na pia e chorou.

*Texto inspirado no microconto de Bill Querengesser que dá título a este conto.

**Agradecimentos ao Rafael Bento que gentilmente ilustrou esta história.

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