A mulher, o banheiro, uma luta

Recentemente li Douglas e outras histórias e, em um de seus textos, Antonio Prata fala da relação dos homens com o banheiro e como é lúdico para os indivíduos do sexo masculino a arte de urinar. Nele, ele fala em como pode ser super divertido para os homens mijar em banheiros públicos mundo afora. Fala sobre como é bacana tentar acertar o jato de xixi em possíveis alvos, sobre os diferentes tipos de mictório encontrados por aí e do “modus operanti” do mijar de um macho e aqui entendo por macho qualquer indivíduo que consiga mijar de pé e tenha algum controle sobre a direção do jato sem que tudo escorra pelas pernas.

Sendo assim, decidi fazer um paralelo feminino da ida ao banheiro público, e aqui, entendo feminino como a pessoa que não consegue direcionar seu xixi para um alvo e nem é capaz de urinar de pé sem deixar tudo escorrer para direções imprevisíveis, ou seja quem tem (ou faz a opção) que mijar sentada. E a primeira conclusão a que cheguei é que para as mulheres fazer xixi não é divertido, não é lúdico e não diria que temos uma relação bacana com os banheiros públicos, mas sim uma relação de sobrevivência.

Nós, mulheres, diferente dos homens, não temos problema (ao menos eu nunca vi brigas ou olhares tortos) em ver outra mijando. Segundo Prata, homens não lidam bem com um migo mijando ao seu lado no mictório. Já tive que tirar uma água do joelho em banheiros sem porta e a mulherada tentava tornar tudo mais tranquilo batendo um papo coletivo bem banal e que inclui a mijona do momento. Acolhedor.

Isso porque toda mulher sabe da saga que é usar um banheiro público, sabe que não nos divertimos muito na hora de fazer xixi em um banheiro carente de higiene. Afinal, poucas mulheres têm a bravura de se sentar em um banheiro que não seja o da sua casa (ou casa da sua mãe, tia, avó, amiga…). Primeiro porque muitos desses locais nem mesmo possuem tábuas e, quando têm, elas estão mais sujas do que crianças em aula de arte, e não é de tinta guache. Então, a não ser que você não tenha amor a sua pele ou disponha de um kit de higienização de tábuas de vaso sanitário, não é indicado se sentar.

Assim, a solução encontrada é fazer xixi de semi-cócoras, veja bem, não é cócoras, porque o vaso tem uma altura que não permite que a gente urine como nossas ancestrais da pré-história. Ou seja, mijamos em posição de agachamento da academia com um agravante, não podemos abaixar demais, sob o risco de encostar nossa perna ou bunda na louça imunda do vaso, e nem levantar demais, sob o risco de mijar no chão ou nos próprios pés. Já dizia uma comunidade do saudoso Orkut “Banheiros públicos tonificam minhas pernas”, tá pra surgir verdade maior. Se o xixi for demorado e a pessoa mijante for um pouco mais sedentária, a posição ingrata da urinada pode causar tremedeiras nas pernas ou interrupção do xixi para dar aquela descansada. True story.

Encontrada a posição perfeita temos outro desafio pela frente: não deixar ir xixi para direções indesejadas como nossas pernas, fora do vaso, pra frente ou para trás demais. E a direção que nosso xixi sai é mais aleatória do que os discursos da Inês Brasil. Se a priquita for depilada então diria que é mais fácil acertar todos os números da mega sena vinte vezes seguidas do que para onde vai o pipi. Ah, ainda tem o problema dos respingos, é bem provável que, mesmo depois conseguir dar um rumo à sua urina, ela pode jogar todo esse esforço vaso abaixo ao bater na água (provavelmente já saturada do xixi alheio) e causar respingos para dos os lados, incluindo sua perna.

Ainda tem um fator que pode dificultar bastante todo esse processo que já não é nada fácil: a porta. Nem sempre a porta fecha, em muitos casos temos bolsa e nenhum lugar para pendurar.Ou seja, se não contarmos com a presença de uma miga prestativa que se proponha a segurar a porta pra você, temos que ser plurivalentes para poder fazer o agachamento, segurar a porta com uma mão e a bolsa na outra, isso quando não a penduramos no pescoço para poder se limpar com a mão livre. Isso se tiver papel.

É, se você tiver saído ilesa do xixi sem rumo e dos respingos (ou pior, se tiver sido incapaz de escapar do xixi descontrolado), terá sorte se encontrar papel higiênico, esse item raríssimo na fauna dos banheiros públicos. O que você faz? Depois de quase chorar de desespero, se sacode como uma louca para tentar fazer aquele último pinguinho cair. Tudo em vão, especialmente se suas pernas estiverem avariadas pelo processo. Coisa triste de se viver.

Ou seja, enquanto homens se divertem mirando em guimbas de cigarro ou pastilhas de naftalina nos mictórios, a gente tá tentando sobreviver. Não me espanto que a maioria das mulheres prefiram ir ao banheiro acompanhada. Questão de segurança (em todos os sentidos).

PS: Título descaradamente inspirado no nome da crônica que deu origem à este texto.

Publicado originalmente em: https://cultsemserpedante.wordpress.com/2016/07/27/eu-escrevi-a-mulher-o-banheiro-uma-luta/