A velha insônia tossiu três da manhã

Ilustração: Rafael Bento

Ela não conseguia ver se já amanhecia lá fora. O dueto veneziana e cortina blackout cumpriam com maestria a função de deixar o quarto um breu, cortado apenas pela luz do visor do decodificador da televisão. Ela nunca achara graça ou poesia em acordar com a luz do sol na cara. Não olhou as horas, não precisava na verdade. Nunca variava muito, algo entre 2:54 e 3:17. Alguma maldição sempre a fazia despertar no mesmo horário; isso ou a insônia tinha despertador.

Manteve os olhos fechados para não cair na tentação de olhar para o relógio do aparelho da Net — ela sempre fazia apostas mentais consigo mesma para tentar acertar o horário em que a insônia tossia — , o que a fez pensar de novo se cancelava ou não a assinatura da TV a cabo. Fazia tempos que não assistia nem mesmo o canal de seriados policiais que tanto gostava. Mas ao mesmo tempo não queria perder a possibilidade ver os programas de culinária que tinham receitas que ela nunca colocava em prática, mas que a deixavam com fome todas as vezes. Sempre se enganava que iria cozinhar algum prato mais elaborado no fim de semana. Mas invariavelmente ela acabava comendo um miojo ou pedindo yakissoba ou pizza.

Lembrou que não tinha comprado o frango para fazer a receita de salpicão que havia pegado na internet algumas semanas antes. Tinha esquecido também de anotar na lista de compras o papel higiênico e o limpa limo. Eram os produtos de limpeza que ela sempre esquecia de comprar, o que fazia que, com frequência, tivesse que improvisar na faxina; usando detergente no vidro do box ou sabão em pó no vaso sanitário. Ela jurava que o efeito era até melhor do que quando usava os produtos apropriados.

Lembrou que não tinha separado a roupa para o dia seguinte e que a porta do armário rangia, o que poderia acordar o marido, que sempre levantava mais tarde que ela. Pensou que ainda faltava mais de um mês para o fim do verão e que o dia teria o clima do bafo de um dragão com azia e ela ficaria irritada depois de suar mais do que o previsto para um mês inteiro antes mesmo das nove da manhã. Não entendia como alguém podia gostar do verão e suas temperaturas inclementes.

Lembrou das pilhas que ainda não tinha levado para a coleta seletiva, o que levou seu pensamento para a preocupação crescente que tinha com o meio ambiente. Se perguntou se o consumismo exacerbado contemporâneo teria alguma solução. Fez alguns cálculos mentais de quanto lixo ainda produziria até o fim da vida, chegou a um número tão alto que preferiu deixar as contas para lá. Além do mais, por ser de humanas, não se dava bem com números e cálculos mais complexos que o troco da lanchonete ou os dez por cento do garçom.

Lembrou dos comentários machistas, homofóbicos e xenofóbicos que Donald Trump vivia vomitando por ai e se perguntou se a humanidade ainda tinha jeito. Pensou na situação do Brasil e achou que era mesmo melhor sermos atingidos por um meteoro. Tentou pensar em vídeos de gatinhos para amenizar o desassossego, mas, de novo se pegou com as mesmas dúvidas de sempre: valia a pena ou não colocar um filho nesse mundo? Se perguntou se ele merecia viver nesses tempos loucos e se era mesmo justo jogar nos ombros de uma criança a missão de melhorar toda essa loucura. Com muito esforço conseguiu jogar pra longe a lembrança de que havia gente que apoiava Bolsonaro em pleno século XXI.

Enquanto fingia para si mesma que dormia percebeu que já não conseguia ignorar o motivo de ter despertado. A vontade de fazer xixi que tentava desprezar desde que acordara já fazia a bexiga doer e a impedia de se mexer para uma posição mais confortável. Se rendeu ao chamado da natureza e seguiu para o banheiro e notou que ainda era escuro lá fora, o dia não parecia querer chegar ainda.

Sucumbiu à tentação de checar as horas: 2:58 da madrugada. Perdera a aposta para ela mesma. Sabendo que ainda tinha algumas boas horas de sono pela frente, conseguiu relaxar, se rendeu ao sono e sonhou que ia ao mercado e esquecia de comprar papel higiênico.

*Texto inspirado no microconto de Dalton Trevisan que dá título a este texto.

**Agradecimentos ao Rafael Bento que gentilmente ilustrou esta história.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Fernanda Turino’s story.