Cafeína

Um dos seus passatempos favoritos era imaginar o que cada uma daquelas pessoas com caras de importante digitavam em seus laptops moderninhos ou smarphones de última geração enquanto bebiam cafés aguados em copos descartáveis naquelas cafeterias americanas.

Era impressionante como esses lugares ficavam cheios em qualquer horário. Sempre havia alguém esparramado em uma das poltronas com estofamento de couro ou nas mesinhas que mal suportavam os pequenos computadores finíssimos e os copinhos com tampas que quase sempre impediam que ela conseguisse ver o que bebiam.

Para Ana, o tipo de café que cada um bebe diz muito sobre a pessoa. Ela achava que não é sensato confiar de cara em quem bebe café gelado ou criar inimizade com os que bebem café descafeinado. Mas sem poder verificar o que cada uma daquelas pessoas bebiam, ela precisava usar de outros artifícios para pensar na história de cada um.

A garota com o telefone grande e de capinha preta era uma estagiária de uma firma de advocacia que era apaixonada pela chefe e achava que ela correspondia o sentimento. Naquele momento, a menina escrevia uma mensagem para amiga contando sobre como a chefe tinha encostado nas pernas dela por baixo da mesa na hora do almoço enquanto respondia ao advogado júnior do escritório que pedia a ela algumas tarefas ingratas. O alento dela era saber que um dia daria o troco em um novo estagiário ou estagiária.

O rapaz de barba escura e óculos de aro redondo que usava fones enquanto digitava rapidamente em seu computador branco era tradutor para dublagens de novelas turcas. Entre uma traduzida e outra ele checava se o número de seguidores em seu canal no YouTube tinha aumentado depois postara o vídeo sobre os easter eggs da última temporada do seu seriado favorito. Ele estava lendo alguns livros de youtubbers para ver se conseguia seguir adiante com a carreira de famoso da internet. As traduções pagavam mal e ele queria conseguir comprar uma casa própria antes dos 30.

A moça de vestido verde e celular de tela quebrada que tinha um olhar observador e digitava com calma enquanto analisava as pessoas à sua volta parecia ser bastante imaginativa. Devia ser professora, a tela sem conserto denunciou que talvez ela não tivesse nadando em dinheiro. Ana pensou que a jovem também criava histórias para as pessoas à sua volta e se perguntou qual criaria para a mulher de calça verde que bebia café em uma xícara e digitava no celular com rapidez.

Para ela, Ana era fã de orgânicos e acreditava no poder da meditação. O livro pousado sobre a mesa era sobre um casal que enfrentava diversas agruras da vida para ficarem juntos no final: histórias de amor eram o seu ponto fraco. Ela trabalhava em uma área tipicamente masculina e tinha que enfrentar o machismo todos os dias para se impor profissionalmente. Ana preferia serra a praia e viagens de avião a deixavam nervosa. Sua viagem dos sonhos era para Machu Picchu ou Japão.

E com uma troca de olhares curta demais para configurar um cumprimento, mas longa o bastante para causar desconforto, as duas fingiram se concentrar nas pequenas telas de seus smartphones. Ana terminou o café e se levantou de volta para sua casa onde ia continuar a se dedicar a contabilidade do novo cliente: uma rede de lanches veganos. Com os novos clientes ela finalmente poderia se dar férias e viajar para a Grécia como tanto queria.

Enquanto isso, a moça do celular rachado pegou seu café para viagem e se dirigiu à loja para comprar um novo telefone. No trajeto, se preparava para a bronca do pai quando ele recebesse a fatura do cartão de crédito. Era o terceiro celular que ela quebrava naquele ano.

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