Inexplicável

O sono de Salvador Dalí

Acordou com o dia ainda escuro. Havia tempos que já não precisava mais do som do despertador para sair do estado de sono. Havia tempos também que não lembrava de seus sonhos. Mas inventava alguns para contar na terapia. Saiu sem tomar banho, o café tomou na padaria, era insosso, mas continha a dose de cafeína que seu corpo pedia. Não o adoçava, o amargor também ajudava.

No caminho o mesmo de sempre: a senhora e seu cachorro cinza, a mãe e seus gêmeos sonolentos de uniforme, o gari com fone de ouvido, o homem com seu cão gordo e ofegante, adolescentes indo para a escola, pessoas com sono no ponto de ônibus, gente.

Desejou ter saído de casaco, fazia um frio inexplicável para aquela época do ano. Na verdade, fazia um frio inexplicável para aquela cidade. Fazia um frio inexplicável. Aproveitou o vento gelado que batia no rosto. No ponto, algumas pessoas brincavam de soltar fumaça pela boca. Aquilo nunca era possível ali. Alguns mais habilidosos faziam argolas. Logo desenvolveram a técnica e começaram a criar formas com destreza. Se encantou especialmente com um gatinho bigodudo feito por uma menina de trancinhas. Uma moça até mesmo conseguia colorir suas formas. Soltava vapores verdes e marrons pela boca com facilidade.

A neve logo começou a cair. Raros carros circulavam na rua. Detrás de uma banca de jornal surgiu um urso polar. Magro, ele tinha um semblante abatido. Sentiu vontade de acariciá-lo. Tentou se aproximar, mas o animal era arisco e se afastou. Talvez por não querer gastar as últimas forças com uma ameaça tão insignificante. Pensou em atraí-lo com comida. Mas em um movimento brusco e preciso, o bicho pegou um cachorro que passeava sem seu dono e o comeu sem espalhar nenhuma gota de sangue. Foi uma refeição asseada.

Continuou a observar o urso. Encarou-o nos olhos, podia jurar que o bicho olhou de volta com desdém. Já não carregava mais o abatimento, agora exibia indiferença. A neve caía com mais intensidade. Não sentia mais frio, percebeu que vestia um grande casaco vermelho. Fumaça saía do seu nariz. Tentou fazer argolas com o vapor que saía da boca, mas não conseguiu.

O despertador tocou. Acordou de sobressalto. Havia tempos que já não precisava mais do som do despertador para sair do estado de sono. Inexplicavelmente havia dormido bem. Inexplicavelmente havia sonhado.

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