Lembra?

Irritação foi o que Catarina sentiu quando abriu a despensa e notou que tinha comprado Nescau enquanto ainda havia duas latas lá dentro, ambas já abertas.

– Essa mania da Elisa de abrir as coisas sem olhar! — reclamou em voz alta para si mesma.

O Nescau do Eduardo. “Ele não sai de casa sem tomar Nescau. Desde pequeno que esse menino é viciado nisso”, pensou ela, “Menos mal que isso não estraga fácil”. Foi até o quarto do filho e confirmou que ele já tinha saído para o colégio. Ele nunca tinha dado trabalho na infância, era um ótimo aluno sempre com boas notas e entre os primeiros da turma, mas agora na adolescência vivia atrasado para a aula e não era raro ela receber um bilhete da escola dizendo que Eduardo tinha dormido em sala ou perdido o primeiro tempo. Isso sem falar nas repetidas recuperações que o garoto colecionava nos últimos tempos e que faziam com que Catarina tivesse que pagar uma fortuna pelas aulas de reforço.

Com Elisa ela não precisava se preocupar, a filha sempre tivera boas notas, principalmente em matemática, coisa para o qual as mulheres da família nunca tiveram muita aptidão. A menina queria ser engenheira, Catarina só não conseguia se lembrar se era civil ou ambiental. Mas não importava, ela achava que a filha ainda era jovem demais para ter decidido que carreira seguir. “Quem sabe como funciona a cabeça desses adolescentes? Vai que amanhã ela resolve ser médica ou advogada? Só tomara que não me invente de querer ser artista que nem o Pedrinho da Lúcia. Deus que me livre”. Mas a verdade é que Catarina sentia uma pontinha de orgulho, que não deixava transparecer, todas as vezes que a filha trazia o boletim cheio de boas notas em matemática e física.

Sem os filhos em casa, Catarina resolveu preparar o almoço. As crianças estavam em fase de crescimento e sempre chegavam da escola esfomeados e prontos para devorar o que vissem pela frente. Ela se orgulhava de ter criados os dois sem frescuras alimentares, comiam de tudo e tinham uma alimentação bastante saudável. Nada dos “não me toques” dos sobrinhos que se recusavam a comer qualquer verdura e faziam careta todas as vezes não podiam beber refrigerante no almoço. Elisa e Eduardo comiam salada e quando queriam beber alguma coisa se satisfaziam com suco.

Se encaminhou para a cozinha e o cheiro de queimado denunciou que já tinha posto a panela do feijão no fogo. Que distração! Quase queima tudo. Olhou na geladeira e percebeu que havia ainda havia frango e salada do jantar da noite anterior. E foi ao fechar a porta que notou os recados anotados em papeis com cores fortes e berrantes. O verde tinha o número do celular dos filhos anotados em letras grandes e bem escritas. “Ué? Elisa mudou de número?”, indagou Catarina “Aposto que foi o pai dela. Ele vai deixar essa garota mimada dando aparelho novo para ela toda hora!”.

Vendo que não era útil na cozinha, Catarina seguiu pra sala a fim de assistir algo na televisão. Buscou o controle nos lugares de sempre e não encontrou. Culpou mentalmente o filho por ser tão desorganizado e desleixado, torcendo pra que a fase da “aborrecência” acabasse logo. Sentou no sofá e resolveu folhear as revistas meticulosamente arrumadas na mesa de centro. Olhou algumas delas com celebridades que não reconheceu e acabou escolhendo uma qualquer com um casal feliz estampado na capa.

Nas páginas de dentro continuou sem reconhecer nenhuma daquelas pessoas. Seguiu olhando as fotos posadas e deu de cara com Fábio Junior de terno acompanhado de uma jovem vestida de noiva. “Será a filha dele que tá casando?”. Foi quando, ao ler o título da matéria, entendeu que aquela era a nova esposa dele. “Mas quando foi que ele separou da Glória Pires que não lembro?” e criticou mentalmente a falta de compromisso desses artistas de hoje em dia que se separam por qualquer besteira. Passeava os olhos em mais algumas páginas repletas de pessoas famosas que ela desconhecia quando ouviu a porta da cozinha abrir e bater com força.

“Eduardo tá com essa mania chata de bater a porta toda vez que entra em casa”. Se encaminhou para a cozinha já ensaiando mentalmente a bronca que ia dar no garoto pela falta de educação e começou a falar antes mesmo de cruzar a porta, sem nem ao menos olhar para o filho:

– Eduardo! Já não te falei que não é para bater a porta com essa força toda?

O menino parecia achar graça da situação e sem dar bola para a bronca que tomava foi logo se dirigindo em direção a mãe para abraçá-la. Aceitando o afago, ela reparou que Eduardo não estava acompanhado de Elisa, mas sim de uma mulher alta e corpulenta de cabelos loiros artificias que Catarina não conseguia reconhecer. Reparando na sua cara de espanto e dúvida, a mulher foi logo se explicando:

– Dona Catarina, a senhora ligou o fogo do feijão? Mas eu avisei que só ia lá embaixo buscar o Miguel. Lembra dele? A senhora confundiu de novo. Esse não é o Eduardo, é o Miguel, seu neto, filho da Elisa, lembra? Mas não precisa ficar nervosa, senta aqui que vou preparar o almoço da senhora. Mas antes vai tomar os seus remédios.

Publicado originalmente em: https://cultsemserpedante.wordpress.com/2016/12/06/lembra/

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