O que eu conquistei aos 24 anos?

E aos 31? Quase nada de material. Eu não tenho um carro, uma casa própria no meu nome, apesar de morar em um apartamento do meu pai. Não tive filhos ainda e estou fazendo uma segunda graduação porque posso me dar o luxo.

Aos 24, eu já tinha estagiado por um salário de 300 reais (sem auxílio transporte) e vibrava quando conseguia pegar um lugar sentada no ônibus, pois aos 24 já havia conquistado uma hérnia que me fazia sentir dores horríveis quando tinha que ficar de pé por mais de três minutos (e que me rendeu uma cicatriz badass). Aos 24 fui morar fora porque podia me dar ao luxo. Sim, eu consegui juntar dinheiro com as poucas centenas de reais que recebia por mês. Mas de novo, porque podia me dar o luxo de pagar um total de zero conta em casa.

Aos 24 eu tinha conquistado zero discos vendidos, igual quantidade de livros publicados, nenhum diploma e não me preocupava com falar menos merda porque não era famosa. Na verdade não me importava em falar menos merda porque simplesmente não ligava de falar merda mesmo. Acho que em sete anos pouca coisa mudou. Talvez só que as merdas estejam mais refinadas. Os 30 anos trazem um pouco mais de refinamento para vida, além de um metabolismo preguiçoso.

É isso, aos 24 eu não tinha conquistado nada de que possa ser considerado digno de orgulho ou marca de um sucesso incrível na minha vida ou carreira profissional (spoiler: continuo sem ter conquistado). Mas isso quer dizer que não conquistei nada? É aquela coisa piegas, né? Conquistei um bom punhado de amigos bacanas, umas leituras legais, uma experiência de intercâmbio bem incrível, um hexacampeonato com o Mengão (eu tava lá no Maraca).

Eu fui (e sou) uma pessoa muito privilegiada. A vida me deu oportunidades ótimas; a maioria eu aproveitei e umas outras deixei passar por querer ou por falta de habilidade de agarrá-las mesmo. Mas ainda assim há quem diga (aquele texto da Uol que não vou colocar o link aqui, pode dar uma googlada que você acha) que aos 24 anos eu não tinha conquistado nada frente à incrível e irrepreensível carreira de Mallu Magalhães.

Sim, eu implico com essa garota. Acho que ela possui pouquíssimo talento musical e é chata pra dedéu. A autora do texto veio em defesa da pobre menina branca e rica (que não pode cantar samba em paz) que aos 24 anos conquistou o mundo com sua incrível “maturidade musical” e indaga aos leitores o que eles, reles mortais, conquistaram na mesma idade. Miga, todo mundo conquistou alguma coisa nessa idade. Só que os méritos da Mallu são fruto muito mais de uma família por trás do que pelo real talento musical dela. O texto me soou um tantinho meritocrático.

E a questão é: o que pode ser considerado conquista digna de ser chamada assim? Tem gente que aos 24 já vai estar entrando no doutorado e falando quatro línguas fluentemente. Outros terão publicado quatro livros e escrevendo o quinto. Alguns ainda vão estar sendo convidados para fazer parte do corpo de Ballet de Nova York.

Mas a maioria mesmo vai, aos 24 anos, colecionar conquistas diárias que podem soar como derrotas para a autora do tal texto. Mas não podemos considerar vitórias sobreviver a jornada de dois estágios por dia e faculdade a noite? Levantar da cama e conseguir tomar um banho depois de dias tentando vencer a bad? Ou conseguir voltar para casa sem tiroteio? E terminar de fazer aquele freela terrível que vai pagar suas contas?

Usar Mallu Magalhães como sinônimo de pessoa que alcançou incríveis conquistas aos 24 anos não é só deselegante, é cruel. Não dá para usar uma pessoa que teve uma porção de privilégios e muita ajuda na vida como exemplo de quem venceu por seus próprios méritos (e apenas eles). Isso é ignorar a realidade de milhares de outras pessoas que alcançam incontáveis conquistas diárias sem nem perceber e sem receber nenhum louro de vitória. Mas essas pessoas também conquistam.

Falar da Mallu Magalhães é fácil, mas mais fácil ainda é ser ela mesmo.

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