Papo de elevador

Desde que se mudara para o novo apartamento, ela desenvolvera um certo medo de encontrar vizinhos no elevador. Não que antes ela fosse uma grande fã dos papos que acontecem dentro dos elevadores, mas agora o blablablá era ainda mais torturante. Talvez porque todos os outros moradores fossem completos desconhecidos, talvez fosse pelo fato de ter trocado o terceiro pelo décimo quinto andar (o que tornava a viagem terrivelmente mais longa). Mas uma coisa era certa: ela odiava aqueles papos sobre o tempo ou sobre como o vizinho do 704 sempre parava o carro atravessado ou então como o cachorro do 1202 vivia latindo nas horas mais impróprias.

Por isso, sentiu um leve incomodo ao abrir a porta do elevador naquela manhã de segunda-feira chuvosa (sempre as piores e mais odiadas nos comentários do Facebook) e encontrar quatro vizinhos espremidos naquela caixona de metal, todos muito bem arrumados prontos para seus trabalhos bem sucedidos, o que a fez se sentir ainda pior e pensar: devia ter escolhido aquela camisa de botão e acordado um pouco mais cedo pra dar tempo de passar aquele rímel bom que não fazia bolotas nos cílios. Ela fez aquela cara de “espero o próximo”. Mas logo um deles disse que ela podia entrar já ue a capacidade do elevador era para seis pessoas. “Putz, vou ter que me apertar aqui com eles e ainda ficar de costas pra todo mundo enquanto falamos sobre como está demorando pra esfriar esse ano”, pensou.

Bom-dias trocados, arruma daqui, aperta dali e todo mundo estava pronto para a viagem pro térreo. Foi quando finalmente chegou aquele momento tão detestado por ela: a hora do papo de elevador. Ela já estava pronta para dar aquelas respostas padrão “É mesmo chata essa chuvinha para começar a semana” ou “Quando o frio vier, vai vir com tudo mesmo”.

Ela não estava nem prestando tanta atenção assim, afinal, dar respostas automáticas não demandava lá muita reflexão filosófica quando ouviu:

— … de Foucault?

— Oi? — perguntou ela.

E o vizinho de terno bem cortado, barba bem feita e perfume importado repetiu:

— O que você acha da figura do panóptipo de Foucault?.

Tudo que ela conseguiu foi dizer novamente

— Oi?

Por sorte, a vizinha do décimo oitavo de cabelos cacheados bem arrumados como os de propaganda de shampoo se adiantou em comentar:

— Acho interessante e penso que poderíamos fazer uma associação com o conceito deleuziano de sociedade de controle.

Ela começava a se sentir ainda mais desconfortável que o normal, olhou rapidamente o visor do elevador e ele ainda marcava o oitavo andar “Como era possível ele ter andado tão devagar?” Pensou em fingir que usava o celular e começou a catá-lo dentro de sua bolsa pouco organizada, mas não deu muita sorte em encontrá-lo, talvez o tivesse esquecido ligado ao carregador, como acontecia com frequência.

Nisso, a outra vizinha de cabelos curtos e roupas moderninhas (mas com certeza de lojas bem caras) continuou a discussão:

— Isso demonstra um grande problema da nossa atual sociedade: a formação do indivíduo mediante os infinitos procedimentos de sujeição.

E então o vizinho do terno bonito e bem cortado se pronunciou novamente:

—Acho que a constituição social do indivíduo a partir das verdades traz em sua estrutura o jogo de forças do exercício do poder…

Quando finalmente, para sua sorte, o visor marcou ‘T’, o elevador parou e abriu as portas para alívio dela e do outro rapaz de blusa social azul royal que não havia dito uma única palavra e que, assim como ela, devia estar também achando aquilo tudo muito estranho. E enquanto ela pensava ele também devia ter sentido falta dos tradicionais assuntos sobre o tempo, carros mal estacionados ou o cachorro escandaloso do vizinho, ele se despede dizendo:

— Qualquer coisa, se você quiser, posso te emprestar o ‘Microfísica do poder’. É só interfonar, 1703. Bom trabalho!

Foi quando ela decidiu: iria finalmente ligar para aquele anúncio da casa à venda na vila na rua ao lado.

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