Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados

Eram vermelhos com um cadarcinho branco, macios, com cheirinho de lavanda e vinham em uma caixinha transparente que fazia com que parecessem um objeto a ser exposto em um museu. Eram tão pequenos que cabiam os dois em uma única mão fechada. Beatriz os comprara por causa da superstição que diz que o bebê deve sair da maternidade usando sapatinhos vermelhos para que saúde e sorte o acompanhem pelo resto da vida.
Fora o primeiro presente que dera a si mesma após a descoberta da gravidez — ou seria um presente para o bebê? Ela e o marido foram cautelosos no começo. Não avisaram a ninguém antes do primeiro trimestre, o que fez com que as respectivas mães ficassem um pouco bravas por terem recebido a notícia tão tarde. Fizeram isso por medo de darem a notícia prematuramente e um aborto espontâneo acontecer. Eles já tinham visto alguns amigos passarem por essa situação. O fato de Beatriz ser muito magra ajudou a manter a esconder a notícia por tanto tempo, seu corpo praticamente não mudou nos três meses iniciais. Eles contaram a novidade para todo mundo na mesma semana em que descobriram o sexo do bebê, uma menina a quem deram o nome de Theodora em homenagem a avó paterna. Um nome forte.
Além disso, a sua magreza conquistada com uma alimentação muito equilibrada e intensos exercícios na academia escondia qualquer barriguinha de peixinho de vala típica das primeiras semanas da gravidez. Os enjoos também colaboraram para que Beatriz não parecesse estar grávida, por causa deles, ela tinha perdido quase dois quilos antes de completar dois meses. Ela conseguia comer apenas batatas cozidas. Optava sempre pelas doces que têm o melhor tipo de carboidrato.
Passada a época dos enjoos, Beatriz continuou a não engordar muito. O medo de perder muito a forma — conquistada com muito esforço — , disfarçado com o temor de ter diabetes gestacional que uma prima de segundo grau tinha tido, a fez procurar uma nutricionista na semana seguinte do teste positivo. Assim, seguiu com uma dieta que incluía todos os nutrientes importantes para o desenvolvimento do bebê, mas que não a faziam engordar demais. A cada semana que passava, ela tinha orgulho de perceber que apenas a sua barriga ia crescendo. Adorava ouvir dos outros que, de costas, ela nem mesmo parecia estar grávida. Os peitos também cresceram, mas ela gostava de usar decotes.
Claro que ela tinha desejos, mas já passara da idade de acreditar que seu filho nasceria com cara de uma pizza de frango com catupiri com borda recheada ou parecendo um pastel de queijo com caldo de cana da feira de sábado. Se manteve firme e forte na dieta, se deixando vencer pela vontade de comer chocolate ou qualquer outra besteira em pouquíssimas situações. Até porque, com a barriga crescendo a cada dia, ficava difícil se dedicar aos exercícios físicos com o mesmo afinco de antes e com isso o risco de engordar demais era grande. No sexto mês, teve que admitir suas limitações e se matriculou na hidroginástica onde podia se comparar com outras mães que pareciam estar engordando além da conta. Sempre negava os convites para comer um bolo depois da aula dando a falsa desculpa da diabetes gestacional.
Entre aulas de parto e leituras de blogs de maternidade — especialmente de mamães fit — , a gravidez seguiu como planejado e com 40 semanas e três dias de gestação (ela acreditava piamente nos cálculos da obstetra), Beatriz sentiu as primeiras contrações. Depois apenas quatro horas de trabalho ela deu à luz a uma meninona. Mesmo. Pesando quase seis quilos a garota ficou famosa na maternidade e até virou notícia. Nas reportagens fizeram questão de destacar que o parto tinha sido normal.
As roupas de recém-nascido não cabiam na filha. O marido teve que ir em casa buscar as maiores que já tinham ganhado ou comprado. Agora Beatriz entendia o porque de ter ganhado tantos quilos na gravidez, mesmo cuidando da alimentação e praticando exercícios com regularidade. Estava aliviada.
Foram para casa no tempo planejado. Lá chegando, Beatriz foi pragmática e separou todas as roupas pequenas demais para a filha que nascera com o tamanho de uma criança de três meses. Não tinha coragem de vender os presentes; além de não precisar realmente do dinheiro que conseguiria vendendo poucas peças, ela tinha pudor de lucrar com coisas que tinha ganhado.
Com os sapatinhos porém, a história era outra, ela mesma os havia comprado e eles tinham custado uma fortuna, pois tinha feito questão de comprá-los na loja de bebês mais cara do shopping. Eles ainda estavam na mala que havia preparado para levar para maternidade, tirou os de lá e fez uma bela foto. Entrou no site de vendas e postou o anúncio “Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados”. O preço que colocou era o mesmo da cinta redutora de medidas que havia visto em uma loja online indicada por uma mamãe fitness no Instagram.
*Texto inspirado no microconto de Ernest Hemingway que dá título a este texto.
**Agradecimentos ao Rafael Bento que gentilmente ilustrou esta história.
