Vergonha

Sheila fora uma adolescente bem apessoada e precoce, foi a segunda a menstruar dentre suas amigas, botou peito antes dos 12 anos e começou a raspar a virilha com 14. Sua vó enchia a boca para falar das ancas da menina. “Vai ser boa parideira essa dai!”. Aos 26, Sheila era continuava bonita, de pele morena, de seios fartos, quadril largo e cabelos negros cacheados. Não saíra do seu bairro da infância, o Méier, e morava a quatro ruas da casa dos pais. Certa vez ela ouvira que a distância perfeita para se morar dos pais ou sogros é aquela em que eles não podem ir de chinelo e nem de malas.

Trabalhava de segunda à sexta das 9h às 18h, como secretária em uma clínica de exames médicos para empresas (daqueles que temos que fazer quando somos admitidos ou demitidos) no centro da cidade. Ela levava uma vida honesta e tranquila, mas tinha um grande segredo, que escondia a todo custo por considerar uma vergonha sem tamanho: gostava de música clássica.

Todos os dias, Sheila pegava 457 em direção ao trabalho e colocava em seu smartphone músicas clássicas para tocar enquanto enfrentava o longo trajeto que separava sua casa do trabalho. Por conta da sua vergonha, mudava o nome dos arquivos para que as pessoas pensassem que o que ela escutava mesmo era pagode — sua neura era tão grande que ela se preparava para caso alguém roubasse seu telefone ou que algum enxerido olhasse de rabo de olho para a tela do seu celular. Um ex namorado ciumento e futriqueiro fora uma experiência traumática e, mesmo depois de mais de um ano do término, Sheila ainda tremia só de pensar que ele pudesse ter descoberto seu segredo. Assim, Mozart, virava Molejo; Tchaikovsky, Terra Samba; Beethoven, Bom Gosto e assim por diante.

Sheila não sabia explicar muito bem a razão para tal vergonha, mas tinha receio de que as pessoas pensassem que ela era pedante por gostar daquele tipo de música. Afinal, toda boa carioca que se preze tem mesmo é que gostar de sambar no pé, ainda mais sendo suburbana. Ela não conhecia ninguém com o mesmo gosto musical, o que tornava seu martírio bastante solitário. O fato é que ela escondia esse segredo como quem esconde que come meleca ou que gosta de comer feijão com uva passa.

Mas além do gosto pela música clássica, Sheila ainda tinha outro hábito que, apesar de ela não se esforçar pra esconder, seus amigos e parentes não conheciam: ela fazia bicos em uma casa de suingue. Duas vezes por semana, ela ia para um estabelecimento, em Copacabana, e ficava por lá para o caso de algum frequentador(a) desacompanhado(a) aparecesse querendo entrar. Como pessoas sozinhas não podiam frequentar o local, Sheila oferecia sua companhia. E ela quase nunca perdia a noite.

Em mais uma dessas noites de bico, enquanto a morena conversava com o segurança e aguardava algum solitário chegar, deu de cara com Rogério, um dos médicos da clínica. O doutor, coitado, ficou completamente sem jeito, pensou em dar meia volta, mas não havia mais nada a se fazer, ele viu que Sheila já o tinha reconhecido. Então, o melhor mesmo era entrar logo na festa — aquela noite com temática de Halloween — e não perder a viagem.

A secretária manteve o profissionalismo e atendeu o doutor como a mesma qualidade que atenderia qualquer outro freguês. Lá dentro realizou todas as fantasias que Rogério propunha, e, entre uma brincadeira e outra os dois começaram a ficar um tantinho íntimos. A química entre os dois foi tanta que resolveram sair dali e ir para um motel. Passaram a noite inteira praticando as mais estranhas e excitantes posições. Depois de umas estripulias mais empolgadas, Sheila foi tomar um banho. Ao voltar para o quarto, viu Rogério mexendo em seu celular. O coração da secretária parou por alguns instantes, a respiração faltou “Sabia que eu já devia ter posto senha nessa porcaria!”. Ela só conseguiu voltar a si quando escutou o doutor falando “Nossa, você também é fã do Zeca? Eu adoro!”. Pelo visto, ele não havia escutado as músicas, apenas tinha fuxicado — de maneira bastante indiscreta e invasiva — as intimidades da moça. O segredo de Sheila estava a salvo.

O mesmo não se pode dizer do affair entre os dois, ela até aceitou o convite de Rogério para sair mais umas duas vezes. Foram noite de sexo maravilhosas. Mas a verdade mesmo, é que Sheila não gostava de mentir e não curtia ele o suficiente a ponto de revelar o seu segredo. E depois de a moça negar alguns convites para um samba e um show do Zeca Pagodinho, Rogério entendeu o recado e voltou a ter uma relação estritamente profissional com Sheila, fosse no consultório ou em Copacabana.

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