O quarto de despejo

Retrato da ocupação Vila Dr. Cardoso, Itapevi, zona oeste de SP

Este ensaio pode te tirar, ainda que pouco, da zona de conforto. Não por mostrar um pouco da favela, mas por ela ser real. Conversando com moradores desta ocupação em Itapevi percebi que a vida deles é difícil, mas que as pessoas não querem ser vistas como “sofridas” ou “carentes”, para além da dó, elas são pessoas. Carne e osso. A luta ali é sobreviver.

A maioria dos moradores está no terreno há mais de 2 anos. Parte dele pertence à CPTM, outra parte invade a construção do corredor metropolitano Itapevi — São Paulo, que terá 23,6 km de extensão. A obra começou em 2006 e, até o momento, não tem ao menos 50% concluído.

Carolina Maria de Jesus, catadora de lixo que morava na favela do Canindé e autora do livro-diário Quarto de Despejo disse algo que parece muito atual: “…classifico São Paulo assim: O Palácio, é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos.”

O diário e a vida de Carolina foram descobertos na década de 1960 por Audálio Dantas, um jornalista. O personagem chave do meu ensaio, seu Jailton, foi descoberto por uma aspirante a jornalista. A minha dúvida é: até quando essas pessoas terão que ser descobertas para ter visibilidade?

Sobre o seu Jailton

Você vai encontrar nas fotos um homem de 54 anos - recém completados -e há dois anos sobrevivente — em suas próprias palavras — na ocupação Vila Dr. Cardoso, Itapevi, zona oeste de SP, esse é seu Jailton.

Ex empresário, carrega lembranças políticas e ideológicas que o fizeram chegar até aqui. Já sofreu um AVC enquanto trabalhava numa construção e estava a sete metros do chão. Quando perguntei porquê sobreviveu, ele disse: “menina, tem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.

Citou Shakespeare, dividiu comigo sua história e ainda me deixou entrar para a lista seleta de pessoas que puderam o fotografar.


Junho de 2016