Uma menina moça

ter vó é tudo de bom

Algumas pessoas têm a graça para narrar algo que, a priori, aparentemente é simples, mas o fazem de maneira muito encantadora. Conheço uma menina moça que faz isso com excelentíssima proeza.

Estava revendo as fotos que temos guardadas em álbuns aqui em casa e, ao vê-la em quase todas, decidi te escrever. Lembrei que o primeiro mês do ano costumava ser muito especial para mim. 7 de janeiro era importante para nós. Era o dia em que tradicionalmente tirávamos os enfeites de Natal que meu pai colocava pela casa. Depois, muito provavelmente teria bolo na sua casa com a família reunida, ou parte dela, para comemorar o aniversário do nosso velhinho favorito. Lembra?

Esse ano, no entanto, foi diferente. Que raios você tinha que ter esse coração cansado, hein?! Fiquei pensando se seria uma boa ideia te lembrar que nesse dia 7 seria também aniversário dele. Achei, por bem, deixar para lá.

Faz um ano que nosso maior chamego foi embora e ao invés de escrever sobre ele, pensei que seria melhor escrever para quem ainda posso ler.

Quando pequena, uma das coisas que eu mais queria era que você aprendesse a ler também, assim eu poderia te mostrar meus trabalhos da escola e te mandar cartas. Mas você, pernambucana orgulhosa que é, nunca se animou muito com a ideia. Então, eu me contentava ir passar um tempinho das férias na sua casa que, além de ter meus primos no fundo do quintal para brincar, podia tentar ler alguns quadrinhos da Turma da Mônica enquanto você preparava o almoço, com seu pano florido na cabeça e sua mão apoiada na cintura, marcando ainda mais a saia longa rodada e quase sempre rendada. E quando você começava a cantarolar “ó balancê, balancê, quero dançar com você. entra na roda, morena, pra ver”, sabia que já era a hora de parar de ler porque você tinha se cansado.

Nos últimos anos muita coisa mudou, né? Paramos de almoçar todo santo domingo o seu macarrão com carne moída. Seu coração mostrou que precisa de atenção redobrada. O vô ficou doente e você perdeu lugar no centro das atenções. Eu fiz uma tatuagem e você achou “até que bonitinha”. O piercing no nariz você se acostumou. Minha recusa em pedir a benção também. Compramos suas brigas, te levamos para viajar depois e esquecer os problemas.

E outras tantas continuaram iguais: seus palavrões, seus cigarros escondidos, seu coque preso com 3 grampos, minha manha - “vó, faz carinho”, sua leve implicância com meus namorados, meu cuidado com você - “vó, não faz esforço” e assim vai.

Nesses seus setenta e sete anos, não me restam dúvidas de que você foi e é muito guerreira. Da sua forma, ainda que me poupando de muitas verdades do passado, me ensinou que a vida é desafio. Não vou romantizar seus atos e sua trajetória cheia de altos e baixos, mas vou te admirar sempre.

Vó, você me conhece bem o suficiente para saber que eu não tenho tanta facilidade para falar o que sinto para as pessoas. As palavras quando ditas em alto e bom tom me assustam porque podem chegar ao ouvido do outro de maneira distorcida e ainda se perder em algum momento, mas quando escrevemos são eternizadas. Por isso, fico grata em poder ler esse texto para você. Prometo fazer isso sempre que você estiver tristinha ou simplesmente esquecer do que eu disse.

Tem quem diga que “ter vó é tudo de bom” e eu não só concordo plenamente, como acrescento que “ter vó é tudo de bom, melhor, de mimo, de amor que transcende”. Queria que você ficasse comigo para todo o sempre. Sabendo que isso não é possível, por ora fico feliz em ter sua companhia birrenta ao lado em todos os momentos importantes da minha vida e que não dariam um terço da felicidade que sinto, se você não estivesse comigo para eternizar em novas fotos, em novas lembranças boas. Como o poeta falou, as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.


Você é a minha menina moça favorita. Te amo, viu?