Pra quem tem fé

O Rio de Janeiro é mais que biscoito Globo. É mais que piscina verde, mais que assalto falso de atleta renomado. É mais que torcida barulhenta, que baías e lagoas poluídas, que carioca mal humorada com os turistas. O Rio de Janeiro é essa coisa louca de uma das maiores taxas de violência urbana do mundo convivendo com uma das maiores alegrias de viver.

Quis fazer Olimpíada aqui? Então segura esse rojão: a cidade é perigosa, violenta, poluída, caótica. As pessoas são bagunceiras, tiradoras de sarro, passionais e pavio curto. Esse é o país do futebol, o comportamento da torcida reflete muitos aspectos desse esporte. Em que o jogador atrapalha o adversário escondido do juiz, faz cera pra gastar tempo, corre pro gol pra agarrar no lugar do goleiro mesmo se for expulso em seguida. O torcedor vai ao estádio não apenas para torcer pelo seu time, mas para “secar” o adversário. E no dia seguinte zoar o colega do time perdedor. Depois almoçam juntos e contam piadas, porque o Rio de Janeiro continua lindo.

Comparar o Evento de Londres ou de Sidney ao do Rio é um equívoco: o que se passou aqui foi sem precedentes.

As Olimpíadas do Rio foram um reflexo do Brasil: cheia de problemas, mas com um monte de gente se empenhando pra fazer as coisas do jeito que dá.

Não há necessidade de glamourizar, de menosprezar e nem de escancarar a incompetência e a violência: elas fazem parte do nosso cotidiano, buscamos contorná-las, isso é vida real, Rio de Janeiro nu e cru. Agora que o mundo viu de perto podia tentar contornar um pouco também. Se parecemos um monte de amadores tentando sediar o maior evento esportivo do mundo é porque de fato os somos, a diferença é que sempre soubemos disso e nem por isso deixamos de entregar o prometido. Não nos tornamos amadores sozinhos, porque assim quisemos e pronto: o subdesenvolvimento faz parte da nossa história, nosso caminho em direção à civilidade é duro e tortuoso.

Pagamos um preço caro pra sediar as Olimpíadas. As obras do transporte público afetaram milhões de cariocas todos os dias durante 5 anos. Os salários de servidores estaduais, meu inclusive, foram atrasados durante vários meses devido à recessão do Estado, que recebeu repasses do governo federal pra financiar as Olimpíadas. Repasses que pagariam as contas de muita gente com vencimentos atrasados. Isso sem contar a remoção de milhares de famílias de suas comunidades para viabilizar a construção de arenas, sem contar a transformação de reservas ambientais em campo de golfe, sem contar toda a lama, toda a grana. A gente foi levando.

Por que o COI escolheu o Rio para sediar essas Olimpidas? Qual foi a motivação pra decisão de uma cidade caótica, violenta, poluída, corrupta como sede dos Jogos? Gostaria de acreditar que foi somente a bondade pura e simples da concessão de uma oportunidade ímpar que traria progresso, empregos e turistas.

Estrangeiros com problemas de primeiro mundo resmungando sobre a Rio 2016 precisam ir lá dá uma olhada na colocação do Brasil. Não no quadro de medalhas, mas no IDH. Na mortalidade infantil, no analfabetismo funcional, na escolaridade média, na corrupção. Vão lá dar uma olhada em que posição estamos nesses parâmetros todos e tomem vergonha na cara. A verdade é que, diante de todos os incontáveis problemas e desafios que enfrenta todos os dias, o Rio está é de parabéns por ter conseguido sediar as Olimpíadas. No final das contas, fizemos uma bela limonada com os inevitáveis Jogos Olímpicos.

Ficar atrás de um computador escrevendo duras críticas à organização e execução das Olimpíadas no Rio é mole (e nós, cariocas, já fizemos isso muitas vezes, muitos anos antes da Rio 2016). Quero ver é fazer alguma coisa no sentido de estimular a melhora de uma cidade e de um país profundamente problemáticos. O que você está fazendo pelo 3º mundo? O que você está fazendo pelos desfavorecidos da sua cidade, país, continente?

Como diria o ditado: não quer ajudar não atrapalhe. Critique, mas seja justo. Seja verdadeiro, mas considere o contexto.

Os Jogos Olímpicos são sempre sobre sonhos. São sobre não apenas o menininho que quer ser o Romário. São sobre o garoto que, nesse momento, quer ser o Robson Conceição e a menina que quer ser como a Rafaela Silva. Esperança é a coisa mais poderosa que se pode dar a alguém. Desde a esperança de se tornar um campeão olímpico até a esperança de se tornar uma cidade desenvolvida, um país do qual não se deseja escapar.

Cinco estações de metrô em 5 anos? Uma nova orla cheia de atividades culturais? Novas linhas expressas de ônibus? O legado pode até ser questionável mas, como diria a legenda da Foto da Rafaela: “pra quem tem fé a vida nunca tem fim.”

Num Rio que respira aliviado depois de previsões apocalípticas (antes), contratempos contornáveis (durante) e de um acalmado Complexo de Vira-Latas que trazia a certeza de que seria vergonha mundial (depois), a esperança cruza com folga a linha de chegada dos nossos fantasmas.

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