Que Lembrança eu Quero Ser Quando Morrer? Que Lembrança Quero Ter enquanto Viver?

Quando criança a minha preocupação era: “o que vou ser quando crescer?” Uma preocupação que hoje considero pobre. Explico. Já somos o que somos. É inevitável. Volte no tempo, esteja com você desde o início, de verdade. Aqui não tem ninguém vendo, falando ou criticando. Apenas volte lá e veja. Se fizer um caminho sem se preocupar com as personas que a vida civilizada trouxe poderá se reconhecer lá, nesse momento.

Visitar quem somos não é muito fácil. Podemos nos misturar com quem gostaríamos de ser, ou melhor, o que nós achamos que gostaríamos de ser. São muitas as opções. O fato é que não dá para fugir, nem escondendo debaixo da cama deixaremos de ser essa totalidade e ela aparecerá.. Preocupação pobre e inútil, pois mesmo aceitando, acatando e vestindo cada persona deixaremos impregnar essa parte que não se desprende em tudo que fazemos. Como a digital, única e intransferível. Tudo bem, podemos abafar, mas isso será tão intenso que viveremos num eterno “bateu, levou”, reativos e num cabo de guerra onde o corpo sempre vai padecer. E salve a indústria farmacêutica!

Agora, a lembrança que quero ser e ter vem me acompanhando há alguns anos. Percebi que estava nesse turbilhão. Valorizava mais as lembranças ruins que as inúmeras riquezas que vivi.

Atendendo em consultório, acompanhando alunos e professores nas escolas, atuando em projetos sociais e em organizações, e principalmente, sendo mãe, percebi que por mais que tentamos e imaginamos proteger e evitar o pior, podemos ser os que causam tantos traumas em nossos filhos. E desejei causar o menor número possível. Acordei e ao abrir a janela do quarto pude contemplar uma paisagem linda que me trouxe uma lembrança deliciosa. E me perguntei, que lembrança quero ser quando morrer? Que lembrança quero ter enquanto viver?

Não é negar nem minimizar problemas. É escolher como vou lidar com eles.

Dessas perguntas voltei à infância e imaginei o quanto meus pais quiseram fazer o melhor, como também quero. O quanto fui rude por não ter reconhecido isso. Como é fácil se prender a meia dúzia de memórias pobres.

Depois que os filhos chegaram, reconhecer e honrar a caminhada dos meus pais aconteceu naturalmente. Meu avô dizia: “É, os “cobradô” chegaram”. Aceitei que é inevitável deixar “traumas”, mas decidi que cuidaria para que as lembranças deliciosas pudessem ser maiores. Aí, lembrei-me do meu pai e um bando de crianças de bicicleta fazendo farra numa pista de terra, minha mãe correndo atrás de uma moleca que pegou nosso brinquedo enquanto eu e minha irmã estávamos distraídas com a brincadeira, e outras tantas lembranças deliciosas. Eles fizeram o melhor.

Com a psicologia aprendi a importância dos laços fortes e do vínculo para o desenvolvimento do ser humano. Nas experiências isso se comprova a cada dia. Apenas ressalto que ainda estamos muito preocupados com o que vamos ser quando crescer, esquecendo que pode ser mais interessante cuidar da lembrança que queremos ser quando morrer e das que queremos ter enquanto viver.

Pai e mãe, enquanto viver revigoro todos os dias as lembranças deliciosas que vocês são. Agradeço poder tê-los comigo para outras tantas que virão.

Meus filhos, espero nessa estrada que temos trilhado juntos, deixar lembranças deliciosas aos borbotões.

Ah, você pode me perguntar: que lembrança você quer ser quando morrer? — — Uma mulher que ajudou a transformar o mundo através da empatia, cuidado e amor.

Que lembrança você quer ter enquanto viver? — As que me fizeram ser essa mulher.

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