Ser passarinho
Conter passarinhos num estômago sensível é declarar guerra contra a imensa vontade de ser. Alimentá-los num ambiente hostil aos impulsos nossos, intrínsecos à existência, é dar voz aos medos que percorrem nossos corpos todos os dias. Passarinhos nasceram para voar, porém detenho-os nesse deserto cheio de flores podres: apesar da vastidão, o que nos cerca é o nada. Cercados e chocados pelo nada, os passarinhos transformaram-se em apenas um, para se economizarem das necessidades que a atividade de ser os impõe. Dou-lhe a mão — pois agora eles são só singular, se juntaram a mim e somos um, juntos — e seguimos pelo nada. No meio do caminho, perpassamos por casas abandonadas e encontramos o tudo e o tudo brilha com a luz do sol das quatro. A luz é forte e também atrapalha minha visão de astigmata, porém passarinho que se presa não voa durante à noite: a luz do dia o guia para que possa alçar voo e alcançar o que quer que esteja depois do céu.
