Ensino Médio (FIEB)

Ferna (Mateus)
Jul 25, 2017 · 6 min read
Via google

Texto originalmente feito pra feira de Profissões Fieb-2017. Obviamente não dava tempo de eu falar tudo isso lá, mas me inspirei. Fiquei bem incerto sobre compartilhar isso mas achei necessário:

“Eai pessoal. An, eu sou o Mateus Fernandes, formei em 014. Na época eu fiquei com 840 no Enem, 940 na reação. Na Fuvest fiz 59. Passei na Ufscar e na Unicamp. E hoje, que faculdade eu faço? Bem, nenhuma. E tô muito bem com isso. Entrar numa universidade envolve muuuuito mais que o vestibular. E isso nem a FIEB nem nenhuma escola te ensina.

Meu primeiro ano(de universidade) foi ótimo num sentido geral. Ok, eu tive algumas crises. Mas isso já era algo meu, eu enfrento problemas psicológicos mais graves desde 2014. O grande problema é que eu sentia que aquilo não era pra mim. Eu não conseguia aproveitar nada sabendo que minha família tava sofrendo pra eu usufruir de tudo aquilo. A pessoa tem que ser muito sangue frio pra conseguir aproveitar sem pensar tudo que isso envolvia. E bem, eu não sou.

Eu não conseguia voltar pra minha vidinha universitária sem pensar nos meus avós doentes, na condição financeira do meus pais, na minha “outra vida” em geral. E eu só conseguia pensar que na verdade eu só tava prejudicando. E isso no meu segundo ano de universidade piorou drasticamente. Meus avós pioraram, e muito. Minha irmã enfrentou uma separação nada amigável. Só isso já era motivo suficiente pra eu querer voltar.

Agora cês me dizem: como tomar um gole de cerveja sabendo que você não deveria gastar aquele dinheiro? Como ir dormir tarde sabendo que seus parentes já estavam perto de acordar?? Até ao pagar o aluguel eu sentia culpa, sabendo que eu tinha uma casa com um quarto confortável me esperando de graça e que esse dinheiro poderia ajudar a pagar todas as dívidas que se acumulavam e ainda acumulam.

Se eu arranjasse um emprego eu até resolveria boa parte disso, mas e a força pra trabalhar e estudar sendo que não havia força nem pra sair da cama?

Enfim, eu agradeço por toda experiência que passei lá. Pra um garoto que saiu da escola pública e de Osasco e que até os 16 anos e meio não sabia que existia faculdade de Audiovisual, cinema ou etc ter ido estudar “imagem e som”(eu falo audiovisual) numa federal longe de casa foi uma vitória.

Notem em que nenhum momento eu falei “sorte”. Sabe por que? Sorte não existe, meus colegas. Sorte é o dinheiro do papai e da mamãe, é o padrão social que você foi criado pra estar adaptado. No máximo existem coincidências, que apareceram em momentos oportunos da sua vida.

Vocês podem não saber, até não perceber, mas desde crianças estão sendo preparados pra algo. Eu não sei, os professores não sabem mas eu estou, cês tão, nós estamos. Sabe esse questionamento bem adolescente que geral deve fazer, eu faço até hoje “Pra que eu vou aprender tal coisa?”. Sabe, a maioria do que a gente aprende é útil sim. Mas eu não falei pra quem. Acaba que não é útil pra gente mas sim pros privilegiados, principalmente pra elite que (infelizmente) coordena o país.

Não vou entrar em detalhes, mas a conclusão: muito do que se ensina, se ensina para treinar, para robotizar. Tanto alunos como professores, pensem: Além da obrigação legal(legal da lei ta, não de legal ou chato), por que vocês tão fazendo o ensino médio? Qual a real função dele?

Imagina que você não quer prestar vestibular nenhum. Qual seria a função da escola então? E acreditem, com certeza vai ter algum aluno assim na sala de vocês. E sabe, não é pobre demais, e até triste demais, a gente gastar anos da nossa vida pra uma bateria de o que, no máximo 3 meses de provas?

Isso que eu queria que refletissem, se não existisse vestibular, valeria a pena o ensino médio? E com isso eu não quero instigar todo mundo a bagunçar, atrapalhar a aula, não. Mas sim a buscar conhecimentos que vão ajudar no que você REALMENTE QUER nas suas vidas. Eu de certa forma acho bonita a “arte” do conhecimento. Mas essa “arte” vai bem mas BEM além do que um monte de provinha de alternativa no fim de semana.

E também não é culpa só dos professores. Muitas vezes eles aqui ralam pra caramba pra não ter o reconhecimento necessário e são obrigados a passar certos conteúdos. Querendo ou não, todo mundo precisa sobreviver, ganhar o ganha pão né. Mas a gente tem que resistir. Sabe, porque a vitória é diferente pra cada um de vocês aqui, eu tenho certeza.

A vitória pra mim foi sair da faculdade. Eu tava num momento muito ruim então sobreviver já foi a minha vitória. Agora pro aqui eu to seguindo, me tratando. Mas eu quero mais. Muito mais. Uma das coisas que eu quero é que isso não aconteça com vocês. Que a pressão não seja tanta que vocês cedam e só quando a vida de vocês está em cheque consigam voltar atrás. Não sintam culpa, vergonha. Não é questão de falta de planejamento PORRA NENHUMA. Todo mundo aqui é muito novo, não podem jogar nas nossas costas planejamentos de quando a gente nem tinha condições de decidir algo. Seu passado, suas raízes, seus pais, tudo isso ta envolvido. Com certeza os alunos que passaram na USP aqui, pelo menos na minha série, tiveram uma base. Fulano antes estudava em particular, cicrana os pais sempre incentivaram, etc. Eu mesmo não passei mas fui pra segunda fase, e não foi só porque “óóó eu mereço”. “Meritocracia” não existe. Não. Por exemplo, eu sempre fui meio inteligente sei lá porque, sempre tive incentivo dos meus pais, aprendi muita coisa com minha irmã. Se não fosse minha irmã acho que nem na Fieb eu teria passado. Claro que há exceções. Também teve na minha série, uma garota que se desdobrou pra trabalhar, fazer técnico e estudar. Parabéns pra ela? Claro! Mais do que merecidos. Mas vocês não precisam ser assim se vocês não querem.

Em termos estruturais a FIEB é uma ótima escola. Eu ainda acho isso aqui, a Dagmar, uma escola muito boa, pelo menos pela minha vivência. Analisando melhor hoje, com mais experiência, acho que os maiores problemas sempre foram pedagógicos e principalmente de tratamento e comunicação com os alunos. Mas como eu disse, a gente tem que reconhecer nossos privilégios. Eu convivi menos de 6 meses numa escola do estado, no meu bairro, periferia de Osasco. Quando me falam mal aqui da Dagmar, o que mais me preocupa nem é ela em si. E sim de pensar que essa é uma das escolas boas. Imaginem as ruins então amigos.

Voltando, o que eu queria dizer mesmo é que os efeitos positivos de passar em qualquer universidade, até que fosse Havard, pra mim nem se compararam aos efeitos negativos que eu tive com depressão, vícios, ansiedade, etc. É logico que a escola não foi a única culpada, mas influi. Só que eu também tirei coisas boas dela, daqui no caso. Principalmente três coisas. E as três tão aqui presentes: Everton, Kaique e Victor.

Se foi aqui que surgiu muitos dos questionamentos na minha cabeça, também foi aqui que eu encontrei alguns motivos para viver mais. No primeiro dia que eu vi o Everton ao voltar de São Carlos, eu chorei. Chorei por lembrar que eu fui fazer a mudança e vi minha vida reduzida a 3 caixas e me sentir tão reduzido, pequeno. Chorei por lembrar tudo que eu tava perdendo em troca de um sonho que eu nem sonhava tanto assim, que nem tava me fazendo tão bem. Eu reitero, não me arrependo de ter ido. Eu tive a chance e só na pratica ia descobrir a chance que eu tava perdendo, ou não. Mas me arrependo menos ainda de ter voltado, porque havia muitos motivos pra voltar. E 3 motivos são esses caras, e o quanto eles me motivam a viver.

O Victor ainda tá se formando esse ano, e é muito por isso que eu to aqui e que to falando tudo isso. Porque eu não quero que ninguém precise passar o que eu passei, chegar perto de tirar a própria vida, pra só depois ter forças pro futuro. Porque eu não quero que nenhuma escola se torne assim, principalmente a escola que me formou e me viu crescer. Porque eu quero uma escola melhor pessoas melhores, em termos de cidadania falando. Porque eu ainda tenho alguns sonhos. E um deles é que as pessoas realmente possam escolher seus futuros. Que as pessoas não sejam seu emprego ou sua carreira. É que elas saibam que são muito além disso. Obrigado.

Ferna (Mateus)
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