Razões pelas quais designers não gostam de trabalhar com você (e você com eles)

Sejamos sinceros: designers por aí te odeiam secretamente. Isso é inevitável, designers são sensíveis, mas não o fazem sem razão. Infelizmente estas razões são pouco discutidas e viram piadas do meio, mas raramente são expostas aos clientes. Escrevi este guia para todos os clientes e chefes de designers — e para designers também.

Você não sabe o que quer

Quando você contrata uma (um) designer para fazer um serviço ou precisa de ajuda de uma designer da sua equipe para executar um projeto, tenha o máximo de informações e referências possíveis do seu objetivo. Explique qual é a sua intenção com aquele projeto e confie na designer para sugerir as soluções. Não traga soluções prontas apenas para que sejam executadas baseadas na sua percepção ou gosto pessoal. Todas as decisões tomadas por uma designer são baseadas no estudo do projeto, na concatenação de informações, na ponderação dos processos de execução e ferramentas utilizadas, no prazo hábil e, claro, em toda sua experiência passada.

Entender a (o) cliente é igualmente necessário e requer atenção, paciência e conhecimento da sua história e valores. Converse com a cliente com o objetivo de desmistificar a comunicação entre vocês. É necessário chegar a um ponto onde tanto você entenda os anseios da cliente quanto a cliente entenda suas necessidades para executar o projeto.

Você não dá valor à experiência

É muito comum, especialmente no mercado brasileiro, que designers não sejam levadas a sério. Um trabalho complexo de pesquisa e de elaboração gráfica que resulta em uma solução inteligente é frequentemente reduzido à sua simplicidade gráfica. “Até meu sobrinho faria isto!”. Além de estar desqualificando seu sobrinho pela atribuição à simplicidade de modo pejorativo, você está ignorando todos os anos de experiência com outros clientes, estudos, projetos e habilidades da designer que você contratou justamente por todas estas qualidades, e que resultaram neste projeto bem executado e rápido. Bom e rápido nunca sairá barato.

Mostre para a cliente todo o trabalho em seus mínimos passos e detalhes, da pesquisa ao rascunho, à seleção de cores, às tentativas de layout ou ilustração. Faça com que ela se sinta parte do processo e note o seu conhecimento e velocidade de execução. Designers também devem ser transparentes.

Você não respeita os processos de produção e criação

Fazer qualquer projeto de design requer que um cronograma seja seguido para termos certeza de que o produto final esteja de acordo com o que seus usuários ou consumidores finais esperam. Burlar algumas das etapas para acelerar o processo ou para “ver como vai ficar” não ajuda na criação e só gera ansiedade na execução do projeto. Seja paciente e ajude a designer a chegar no melhor resultado possível em cada etapa, seguindo as fases do projeto.

Faça parte dos processos da cliente em proporção igual, atentando-se a como ela trabalha e quais metodologias utiliza. Adapte-se e mostre-se receptiva a mudanças no cronograma, mas seja firme quanto às etapas e diga como o processo será comprometido com alterações.

Design não é o que você pensa que é

Design não é o visual de um impresso, não é escolher cores e fontes, não é usar Photoshop, não é fazer algo ficar bonito. Design é um processo técnico e criativo para a resolução de um problema com raiz social, comumente sendo este um problema de comunicação ou de acessibilidade. A função do designer não é deixar um projeto bonito, a beleza do projeto é um produto de um processo de pesquisa da resolução do problema de comunicação, da aplicação de diversas metodologias de organização visual, do entendimento das necessidades das partes que se comunicam (cliente e consumidor), da utilização de ferramentas técnicas para a execução de cada projeto (entre elas o Photoshop, mas nunca o PowerPoint), do emprego da criatividade para esta solução e diversos outros processos e etapas de acordo com cada projeto.

Ao mesmo tempo, a cliente não é obrigada a saber estas informações e é nosso trabalho informá-la disto. Deixe o ego de lado e explique como o processo é feito, quais são as etapas necessárias e tudo que é envolvido até a entrega do projeto. Use termos simples, descreva com clareza e use exemplos. Tente definir pontos de interação nos quais a cliente deve participar mais ativamente e outros nos quais o seu trabalho deve estar isolado para o cumprimento das etapas técnicas.

Você só confia no seu gosto

É muito difícil desapegar do gosto pessoal para um trabalho profissional, mas é essencial ter esta separação em mente: preferências pessoais nem sempre são as melhores escolhas para os projetos. Independente do gosto da designer, ela deve escolher o estilo e as técnicas corretas para sua execução. Claro, há por aí profissionais conhecidas por um estilo próprio (às quais chamamos de designers autorais), e mesmo assim essa profissional poderia se negar a fazer seu projeto pois seu estilo autoral não funcionaria para o seu caso.

Saiba escolher as batalhas. Algumas sugestões da cliente podem não ter a ver com seu estilo pessoal mas podem ser soluções ideais para o projeto. Utilize a pesquisa com consumidores e usuários para validar certas aplicações gráficas e teste versões diferentes do material para fazer decisões baseadas em dados. Não aja como se conhecesse os consumidores melhor que a cliente.

Você quer copiar outros produtos

Uma facada doeria menos que copiar o trabalho de outra pessoa. Mesmo havendo casos de sucesso dos quais pode-se extrair inspiração e boas práticas, lidar com uma cliente que quer copiar outro produto é muito desgastante e nada animador. Todo o trabalho de pesquisa e criação é jogado pela janela a favor da cópia de um modelo “que funciona”. Produtos são muito diferentes entre si; o que funcionou para Ciclano não necessariamente funcionará para sua empresa, para sua marca, para seu posicionamento, para seu público, e assim por diante.

Veja se a cliente é flexível e sugira alterações no projeto copiado que trariam benefícios e destaque para o produto. Mostre como aquele projeto foi criado com as necessidades daquela empresa em mente e como seriam traduzidos para o cenário da sua cliente. Caso não haja flexibilidade, deixe a cliente ir gentilmente, explicando que você não tem interesse em fotocopiar.

Você envia imagens e textos em PowerPoint…

O PowerPoint, o Prezi e outras ferramentas de edição de texto com qualquer habilidade multimídia dão a falsa impressão de poder criativo. Você não precisa e nem deveria utilizar essas ferramentas para enviar textos ou imagens para suas designers, e muito menos especificações técnicas. Envie os textos no formato mais simples possível, com o mínimo de formatação, e as imagens originais em um zip. Anexe-os ao e-mail e pronto. Ninguém precisa nem ter o PowerPoint instalado. Na hora de trocar informações e dados a forma mais simples é a melhor.

Defina os formatos de troca de informação logo no começo do projeto e lembre a cliente de utilizar estes formatos durante o projeto. Não presuma que toda cliente possa abrir um PDF ou TIFF com facilidade, use o básico até que a parte técnica de entrega do projeto seja definida.

… e quer que o seu designer o utilize também.

Existem ferramentas específicas para certos tipos de trabalhos e existem quebra-galhos. O papel específico do PowerPoint é criar apresentações e, apesar de ser excelente para este uso, ele não é uma ferramenta de design. No âmbito do design ele é somente um quebra-galho. É necessário perceber que tal ferramenta, longe de ser ideal para projetos profissionais de design, também trará resultados longe de ideais.

Caso a cliente exija a utilização de certa ferramenta, peça acesso a esta ferramenta ou uma licença de uso da empresa para que possa executar o trabalho. Caso você tenha a ferramenta, cobre da cliente o valor proporcional à utilização e manutenção da mesma durante a duração do projeto. 
Se a ferramenta for um quebra-galho, demonstre o máximo de qualidade que pode ser extraída e quais limitações existem antes de executar qualquer peça ou fazer promessas.

Você pirateia software e espera isso dos demais

Sem dúvida boa parte do orçamento de um projeto de design se deve ao pagamento das ferramentas utilizadas e dos processos envolvidos, como testes, impressões, materiais e softwares. Depender de software pirata é um risco tanto para o cliente quanto para o designer — tanto legal quanto funcional, pois o software pirata está suscetível a falhas que não terão suporte técnico. A facilidade de obter uma versão ilegal de um software não justifica a sua utilização quando comparado aos riscos de perder o trabalho, ter problemas legais e todas as dores de cabeça possíveis.

Não dê ouvidos a clientes que te peçam para usar software pirateado ou exijam de você qualquer ferramenta para o serviço. Quando você vai trabalhar como chef em um restaurante você não precisa levar as facas e os legumes. Quando você vai trabalhar como designer também não é obrigada a ter qualquer software, apenas o know-how (a habilidade) para executar o serviço. Se estiver prestando um serviço como terceirizada, garanta a segurança do projeto com software original.

Espero que a reflexão sobre estes pontos façam sua relação com designers e clientes mais sincera e eficiente.
Boa sorte nos próximos projetos!

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