O som da chuva

Seis horas e quarenta e oito minutos da manhã. Acordei atrasado, pelo terceiro dia consecutivo, para o trabalho. Virei as costas para o lado esquerdo da cama, tocando cegamente os lençóis vazios: minha esposa já havia saído e não havia me chamado para o café da manhã.

Levantei, olhei para as ruas pela janela do quarto do prédio onde moro e decidi ficar em casa. Não tenho carro nem dinheiro para o ônibus. O chuveiro queimou, impossibilitando que eu possa tomar um banho apropriado para uma manhã fria e o meu uniforme ainda precisa ser passado a ferro.

Todas essas pequenas desculpas já me são suficientes para explicar a minha falta de vontade, tanto quanto provavelmente me contentarei em fingir acreditar que a decisão de sair do meu emprego atual realmente seja minha, e não que eu serei demitido. A verdade que me tranca em casa é a que está chovendo, e a chuva me traz na memória a história de uma vida infeliz.

A chuva é provavelmente a maior anunciadora da tristeza no mundo. Nos filmes Hollywoodianos, os caixões dos heróis são acompanhados de uma pesada e silenciosa chuva, enquanto as vitórias são agraciadas com um sol nascente. Nos noticiários, épocas de chuva trazem consigo matérias melancólicas de pessoas miseráveis que perdem o nada que possuem para as enchentes. Dessas miseráveis, eu analiso que as com sorte perdem suas vidas, pois não aparecem nas frentes das câmeras chorando. Até meu cachorro, batizado de “Thor” pela minha esposa, compreende que a iminência de nuvens escuras, trovões e, como resultado, gotas de água caindo do céu significam que não haverá passeios naquele dia. Ele entende o que a chuva realmente significa.

Os maiores culpados pela minha melancolia são, com certeza, meus pais. Foram eles que me tiraram, desde criança, a benção da ignorância humana. Ambos eram trabalhadores de chãos de fábrica: minha mãe trabalhava numa indústria de tecidos; já meu pai era metalúrgico. Os dois tinham a mesma história clichê da vida de um país subdesenvolvido: haviam nascido e crescido no meio rural, saindo de suas casas que a ilusão ridícula de que nas áreas urbanas encontrariam melhores condições de vida.

Quando eu era pequeno, minha mãe me contava histórias de pessoas de outros tempos e outros lugares, que se rebelavam contra a ganância de um grupo seleto de indivíduos. Ela me falava de como essas pessoas causavam greves, rebeliões e, em casos mais extremos, incitavam guerras civis para que o mundo fosse um lugar mais justo, igual e feliz para todos. Meu pai costumava chegar em casa acompanhado de outros colegas de trabalho, os quais ele chamava de “camaradas”. Eles discutiam formas de fazer com que o sindicato fosse mais ativo e lutasse pelos direitos dos trabalhadores. Às vezes ele me contava, com brilhos nos olhos, situações onde conflitos abertos com as forças armadas o levavam para a cadeia e, em quase todas as vezes, comentava o tempo que havia dividido celas com o ícone da luta operária nacional.

Com esse fundo, era nítido que eu passaria os anos de minha adolescência cercado dos volumes de teóricos alemães revolucionários, comprando brigas de causas sociais, participando dos grêmios estudantis, criando grupos de estudos políticos para chamar a atenção de novas pessoas sobre os equívocos da sociedade contemporânea. Estudei em cursos que estavam alinhados ao meu ponto de vista e pratiquei uma vida jovem de consciência de si e do mundo. Eu fechava os olhos e ouvia os sons de tambores anunciando um novo horizonte para a humanidade. Uma sociedade justa, feita para todos, sem preconceitos ou discriminações. Eu podia presenciar o momento de mudança, sentir seu cheiro de pólvora, enxergar suas cores vibrantes enfeitadas com os sorrisos de milhares de bocas, ouvir as músicas e marchas de harmonia.

É nítido que as decepções surgiram com mais velocidade e intensidade do que a minha esperança havia florescido. Ninguém dava mais ouvidos para os teóricos; os grêmios cessaram; os amigos que eu chamava de “camaradas” haviam se dissipado, cada um com seus olhos voltados aos próprios pés; as manifestações e revoltas populares já não dialogavam com o povo. O mundo envelheceu e encolheu em perspectiva. Quem teve sorte foram os meus pais, morreram cedo, vítimas de acidente de carro. Morreram ainda com esperança, entusiasmo e sem o gosto amargo que a realidade traz ao sabor de um sonho infantil. Só deixaram no mundo um punhado de “camaradas”, hoje também desiludidos; e um jovem filho, vítima de um ideal inabalável e intangível.

Hoje em dia, eu fecho os olhos e escuto apenas o som da chuva.