Os Trapalhões e a Praça da Sé

Se você quiser ser sentir um subdesenvolvido completo, assista qualquer coisa d’Os Trapalhões.

Durante as férias escolares, eu corria para a sala quando passava algum filme d’Os Trapalhões. Até os programas eu não perdia. Bastava saber qual horário passava, se não entrava em conflito com a escola e — voilà — lá estava eu, em frente à velha TV de tubo Sharp para ver alguma peripécia do quarteto.

Eu ainda gosto d’Os Trapalhões, mesmo sabendo que é algo que não deve ser dito em algumas rodinhas. Envelheceu mal? Concordo. É chulo, tosco, retrógrado? Sem dúvida. É indefensável? Não sei.

Eileen, a ex-ficante irlandesa de um amigo meu, veio ao Brasil com aquela convicção louca que “não existe pecado abaixo do Equador”. Meu amigo, pouco se fodendo com as etiquetas brazucas consagradas, ao invés de mostrar nossa macumba-pra-gringo-ver, já foi logo mostrando a (sub) cultura bagaceira — que nos representa tão bem e em que costumamos, via de regra, ser bem mais criativos.

Em outras palavras, ao invés de mostrar as cores assépticas e elétricas da nossa Avenida Paulista, ele já veio mostrando a nossa Praça da Sé, bruta com sua iluminação in natura, tropicalista na sua imundície.

Eileen vibrou com os filmes “experimentais” da Boca do Lixo, o que foi uma surpresa. Mas com Os Trapalhões ela foi duríssima, o que foi uma surpresa ainda maior:

“Imagine três tiozões, que se sentam sempre no fundo de um pub. Eles se juntam, chamam seu vizinho africano, e decidem rodar um pornô softcore para provar que a mulher é um ser inferior e a homossexualidade é errada”.

Os Trapalhões — ou, nos dizeres hiperbólicos do site IMDb: the Brazilian Monty Phyton — foi um fenômeno absurdo de público, ainda que massacrado pela crítica especializada. O que não é nenhuma novidade, visto que os nossos críticos tipificam bem aquilo que G. K. Chesterton disse em um de seus escritos: “Por uma curiosa confusão, muitos críticos modernos passaram da proposição de que uma obra-prima pode ser impopular para a outra proposição de que, a menos que seja impopular, não é uma obra-prima” (Grifos meus)

Ao contrário de Mazzaropi, que de uns tempos para cá, tem ganhado um tímido aceno dos críticos, Os Trapalhões continua — até onde sei — como uma espécie de poste-ídolo do mau-gosto.

Houve época em que eu achava que popularidade e qualidade eram grandezas inversamente proporcionais, onde um empate técnico significava uma obra morna, de potencial, mas com concessões — semelhante ao que disseram dos filmes da Jogos Vorazes.

Como qualquer universitário de classe média, cheio de máximas livrescas tomadas como verdades, achava a indústria cultural a insofismável vilã das histórias do mundo moderno. E ainda acho isso, de certa forma, mas com vários e trêmulos parênteses, numa lógica pessoal confusa, como uma grande questão em aberto.

No dizer dos indestrutíveis Adorno & Horkheimer em seu A Indústria Cultural: O esclarecimento como mistificação das massas (1947) vemos que “a diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições de enfrentá-lo (…) O espectador não deve ter necessidade de nenhum pensamento próprio, o produto prescreve toda reação.”

Os Trapalhões é, de certa forma, a representação muito bem (ou mal?) acabada de uma forma vazia e desinteligente de se fazer cinema, de se fazer humor. Com um andamento acelerado e cantarolado, suas piadas bem que parecem tiradas de uma criança insolente — o bullying insosso, a agressividade sonsa, o otimismo sedado.

Ah, e tem o clichê, esse voraz caruncho que devora toda obra, toda a arte, toda a fruição estética!

Porém, Os Trapalhões e o Mágico de Oróz (1984) tem tudo isso em escalas galácticas, mas, gente, é um clássico belíssimo, síntese de tudo de bom e de ruim que existiu da década de 1980. Ninguém pode se dizer fã do cinema nacional e não ter assistido essa pequena grande obra-prima, precária, caótica, mas tão eficaz!

A Praça da Sé, resgatando uma metáfora anterior, é o nosso Miserável Brasil Profundo: os perebentos, a Rede Globo, Silvio Santos, o churrasco grego, R.R. Soares, a linha 12 da CPTM, Roberto Carlos. Já Avenida Paulista é o Brazil exportação, essa linha evolutiva da modernidade, bossa nova, poesia concreta, Glauber Rocha, Caetano Veloso, a USP, as passeatas, o Uber.

A Praça da Sé, tal e qual o circo trapalhônico, é a nossa cara sem maquiagens, sincera, palpitante, feia e controvertida diante dos marimbondos de fogo do Terceiro Mundo. É a cara do Brasil — uma grande bosta que amamos ou odiamos, dependendo das nossas pretensões.

Eu gosto e sigo gostando d’Os Trapalhões, apesar de — e por causa — disso tudo comentado linhas acima. Minhas leituras me fraturaram; uma parte de mim tornou-se o problematizador treteiro empenhado em pôr em crise todas as coisas, inclusive o cinema com a namorada. E uma outra, consciente que a vida é mais feita de prazeres que de perguntas, senta a bunda no sofá e dá risadas infantis, alienadas e subdesenvolvidas, refestelado com muito guaraná e pipoca.

Há várias maneiras de se sentir brasileiro, amigo leitor. Prefiro, porém, a mais clássica.

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