Supersônico

Aquele velho sentimento fluiu com a estrada, e, quando você se deu conta, ele pegou carona no seu carro. E ainda sentou no banco da frente. É assustadoramente estonteante acordar em uma manhã de fim de inverno e se dar conta de que o ano quase inteiro já escorreu pelas nossas mãos e parece que foi no fim de semana passado que observávamos os fogos do reveillón refletindo no mar calmo, trazendo promessas de que dessa vez ia ser diferente. Não foi. De novo. Mas disso, talvez, a gente já soubesse.

O que não sabíamos era que o tempo correria mais rápido do que uma Ferrari arrancando numa reta, do que o avião decolando, do que… o tempo. Sentimo-nos, mais uma vez, passageiros. Passageiros porque sabemos que vamos passar, e porque ser passageiro implica em não ter controle sobre quem está na direção. E esse tempo que voa como um supersônico nos faz ter a impressão de que já não somos nós quem estamos na direção, mas uma força qualquer que apenas nos leva embora. Leva embora de nós mesmos. E nem tivemos tempo de apertar os cintos.

Quando nos damos conta, já passou tanto tempo e nada mudou. Mas, ao menos tempo, tudo. Como uma velha casa que foi reformada mas conservou seus alicerces. As coisas que não mudam, não mudaram. Nem mudarão. A gente é que precisa se adequar a elas. Desapegar dessa bobagem de que o tempo é o senhor dos remédios — maior mentira que já contaram por aí. Se ficarmos esperando o tempo mudar alguma coisa, só o que ele vai mudar é o número do ano no calendário, e na velocidade da luz. Então, mudemos nós.

A gente percebe que talvez haja coisas que carregaremos pelo resto da vida. Elas estarão lá, em um canto empoeirado. Mas permanecerão como estão. Porque se todas as tentativas de se livrar delas já fracassaram, talvez seja ali mesmo que elas devam ficar, para nos ensinar o que quer que seja. Ou nos lembrar de alguma coisa. Então, quem sabe, numa manhã de fim de inverno qualquer acordaremos e nos daremos conta de que elas desapareceram. Tão repentinamente quanto chegaram. Mas, enquanto esse dia não chega, olharemos pro banco do carona e as veremos lá, olhando pela janela. Fique o quanto quiser: a casa é sua. Visitemos os nossos sentimentos estranhos. Porque, quanto mais fugirmos deles, por mais tempo eles estarão acenando pra nós pra onde quer que tentemos desviar o olhar.

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