O Escafandro.

Escafandro. Pesadões e antiquados. Brutos e deslocados, um tremendo trambolho que proporciona uns minutos embaixo d´água. 
Hoje em dia é peça de museu. Ninguém mais usa, já foi descartado por novas tecnologias, uns tubo de oxigênio com medidor, trava de segurança e outras modernidades. Dizem que mergulhar com um desses é uma experiência, mas com um escafandro é outra. Não podia deixar de ser. Com o primeiro o mergulhador sente que está em um local que não o pertence, incomodado com o deslocar daquela veste espacial.

Então ele tem muito cuidado.

Fica olhando as medições de pressão, de oxigênio, de profundidade, a todo instante. Ele não relaxa. Apesar de estar em um local em que se sente maravilhosamente bem (afinal, quem é que se sujeita a colocar uma jaqueta de chumbo no fundo do mar?), ele tá sempre de prontidão. Foi ensinado assim, nas melhores escolas. Ensinaram que a melhor maneira de despressurizar é subir devagarinho, bem aos poucos. Ensinaram que se descer mais do que tantas atmosferas ele começa a perder a consciência e aí, bem, e aí acabou né? Enfim, um mergulho cheio de regras, cauteloso.

Nessas mesmas escolas de mergulho contavam-se histórias de um antigo aluno, que em uma exploração de rotina, decidiu tirar o escafandro. Dizem que ele descobriu um submarino submerso, verificou a existência de oxigênio e decidiu ficar por lá mesmo. Outros dizem que ele criou guelras e agora consegue respirar debaixo d´água. A verdade é que ele nunca mais voltou, e que seu escafandro foi encontrado vazio, milhares de léguas submarinas distante do local de mergulho. Um amigo seu de classe diz que conversa com ele, em suas caminhadas noturnas. Senta na pedra mais distante do Arpoador e fica falando com as ondas. É o que é visível e audível aos nossos sentidos mundanos. Ele jura que conversa, altos papos, pergunta como tá tudo aí embaixo. Sempre sai feliz de lá, com uma fisionomia fantástica. Lhe faz um bem danado conversar com as ondas. Quer dizer, com seu amigo. Voltando pra casa um dia, ouvi ele dizer, bem baixinho: ‘Ele disse que lá embaixo tá muito bom, que ele não precisa mais se preocupar com muita coisa a não ser nadar, comer uns peixinhos e voltar a nadar outra vez. Ele tá muito feliz, ele tá, que bom, que bom, que bom’.

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