Terraço

*play a melancholic song*

Estava com problemas. Não sabia realmente quais, mas pelo jeito que as cores mudaram, que as músicas sempre buscavam o tom menor, eles eram grandes. Sorria pra fingir. Pra se enganar. Algo mudou dentro dele e não sabia muito bem o que. Aliás, não saber era o que mais sabia. Não se conhecer e aceitar a torrente de emoções que volta e meia lhe acertavam em cheio era sua especialidade. Mas o que menos esperava é que a ajuda que estava por vir morava exatamente dentro dele. Sua alma veio lhe ajudar.

Em suas primeiras tentativas de socorro, tentou povoar-lhe seus sonhos com mensagens cifradas. Mas seu sono era pesado demais. Suas mensagens falhavam como suspeitava: Seu receptor não estava apto à absorve-las. Seus séculos de experiência comparado a existência carnal do jovem rapaz divergia em tantos graus que ela se achou uma alma bem inocente ao tentar utilizar-se dessa abordagem. Era preciso inovar. Era preciso dialogar com seres do mesmo grau, ancestrais iguais a ela. Então a alma partiu em busca de ajuda.

O jovem rapaz jamais iria desconfiar, mas todas as noites saía em busca de ajuda. Seu sono, já tão anestesiado, não ia notar se ela desse uma voltinha sem ele. Então voava nos céus, em busca de outros sonhos. E entrava de penetra mesmo, sem ser convidada. Apontava dentro do sonho alheio que o tal moço estava em apuros, que alguém precisava mostrar-lhe algum caminho. Qualquer caminho. Após algumas tentativas acabou por obter algumas respostas, e as mensagens que conseguiu comunicar pras suas co-irmãs voltavam em forma de ressignificação por parte dos seus receptores. E eles corriam a avisá-lo de que algo estava acontecendo. ‘Tive um sonho horrível com você, tá tudo bem?’. ‘Tô ótimo’. ‘Tem certeza?’. ‘Sim, melhor do que nunca’. Mas por dentro não se ouviam passos, estava vazio. A alma havia falhado.

O que ela não esperava, e olha que pra pegar uma alma desprevenida é preciso uma alta dose de sorte, era que o seu receptáculo iria, em um vislumbre de auto-consciência, identificar seus fantasmas. Não sabe-se muito bem o que o motivou, mas desconfia que foi uma soma de fatores difusos e desconexos. Mas se sente satisfeita em ter feito parte dessa empreitada. Agora vê o jovem rapaz envolto com seus medos e anseios, mas lhe diz em voz baixa nos sonhos: “Tudo há de melhorar”.

Mas quem disse que ele entende?

*play another melancholic song*

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