Carta aberta ao nobre jurista, Hélio Bicudo

Por Fernando Castilho

Amigos, logicamente não tenho a pretensão de que esta carta chegue ao Dr. Hélio Bicudo, uma vez que sou um pequeno blogueiro e pouca gente dará atenção a ela, vamos combinar.

Não tenho a pretensão também de exprimir o sentimento de cada brasileiro pois não tenho essa capacidade nem esse direito. Falo então por mim, embora no final defenda os votos dos 54,5 milhões de eleitores que votaram em Dilma Rousseff.

Mas como na internet tudo é possível, quem sabe por vias tortuosas o o Dr. Hélio acabe lendo-a? Quem sabe?

Vamos à carta.

Dr. Hélio, desculpe mas a partir de agora vou chamá-lo de ‘’você’’, certo?

Você foi ministro interino da Fazenda no governo João Goulart, deposto pelo espúrio regime militar de 1964. Começa a ter história na esquerda a partir daí.

Inesquecível sua luta contra o Esquadrão da Morte em São Paulo.

Atuando praticamente sozinho, contra todo tipo de pressões e ameaças, você expôs as vísceras do grupo e levou à cadeia alguns de seus membros, entre eles o líder, o delegado Fleury, torturador e chefe do DOPS, um dos homens mais poderosos da polícia paulista que não conseguiu nem prendê-lo nem dar fim à sua vida.

Você foi um Golias gigantesco contra todos aqueles que compactuavam daquela imoralidade cruel, ofensiva aos direitos humanos e totalmente contrária ao Estado de Direito.

Tentei conservar ao longos dos anos minha lembrança de sua estatura física pequena mas principalmente não sai de minha memória sua estatura moral imensa. Daqueles tempos.

Mesmo depois que você saiu do PT em 2005, enojado com o processo do mensalão.

Mesmo que você não tenha se preocupado em defender seus companheiros contra uma condenação muito mais midiática e política do que pautada pela busca da Justiça, antiga obsessão sua no episódio do mensalão.

Mesmo que digam que você ficou ressentido com Lula e por nunca tê-lo perdoado destila há décadas seu ódio.

Mesmo que você tenha apoiado José Serra, candidato da direita, nas eleições de 2010, em detrimento de Dilma Rousseff, que representava o único e mais consistente projeto da mesma esquerda da qual você fora outrora grande apoiador.

Mas agora, Hélio, você foi longe demais.

Não porque eu simplesmente não concorde com suas posturas políticas que mudaram radicalmente. Isso acontece com muita gente de esquerda que envelhece. E você não está senil como muita gente sugere.

Mas ao elaborar um parecer jurídico em conjunto com Miguel Reale Júnior, da mesma direita que quer retomar o poder à força no país, você dá amostras de uma inconsequência juvenil.

O seu parecer, para espanto de juristas não menos respeitados como Bandeira de Mello ou Dalmo Dallari, não se sustenta por ser muito falho. Pior, Bandeira de Mello vai além ao classificar o pedido de impeachment como ‘’palhaçada’’. Isso não é constrangedor para um jurista de sua qualidade e história?

As pedaladas fiscais do governo Dilma, que é o fiozinho em que vocês se pegaram não tem consistência por não ferir o Artigo 36 da Lei de Responsabilidade Fiscal como vocês querem.

E vocês sabem disso, mas mesmo assim receberam da oposição golpista sua boa paga para escrever esse amontoado de bobagens que está agora sendo usado pelo escroque maior da nação, Eduardo Cunha para derrubar injustamente a presidente Dilma.

Uma vez na Câmara, todas as falhas técnicas do parecer serão esquecidas e o processo a partir de agora se guiará somente pela decisão política daqueles 300 picaretas com anel de doutor que seu desafeto outrora citou.

Embora tentasse evitar citar seus filhos por não querer me imiscuir em questões familiares, ficou claro pela entrevista que seu filho mais velho José Eduardo concedeu, que eles não apoiam seu ato. Pior, a crítica que ele faz ao pai é extremamente severa.

Hélio, a biografia de uma vida de 93 anos não pode ser manchada por atos movidos por ressentimentos que jogarão a nação numa crise institucional ainda maior que a econômica. Não é justo.

A imagem que fica de um homem são sempre seus últimos atos como ser humano antes da morte. É por isso que não se dá nome de rua para quem ainda está vivo.

Hélio, por todo o exposto, peço, não só em meu nome, mas também no de 54,5 milhões de votos que não podem ser jogados no lixo comprometendo a consolidação de nossa democracia ainda tão jovem, que reveja sua posição.

Não será vergonhoso de sua parte, muito pelo contrário, será um ato típico daquela coragem com que você enfrentou o Esquadrão da Morte nos tempos mais sombrios da ditadura.

Apontar agora o erro técnico inviabilizará o pedido de impeachment, Cunha será derrotado e preso, a nação deverá retomar unida o caminho da superação de sua crise e a oposição, se apresentar propostas melhores terá sua chance democrática em 2018.

Passo agora, em respeito à sua história e aos seus 93 anos de idade, a chamá-lo de ‘’senhor’’.

Fernando Castilho é Arquiteto Urbanista, Professor e Blogueiro

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