A vida dos Sonhos

Todas as noites eram cheias da mesma aflição. Ansiosa para dormir e viver os sonhos que a faziam feliz. O seu dia-a-dia não agradava seu coração. Não vivia um casamento dos sonhos e seu marido não era nem de longe o que tinha sonhado para sua vida. Seu trabalho, numa pequena loja do bairro, não lhe rendia sequer o que precisava para o sustento da família. O companheiro não trabalhava e os bicos que ele arrumava eram apenas para sustendo do vício com a bebida e cigarros.

Quando dormia, Thalita vivia a vida que sempre sonhou: Uma bailarina cheia de vida. Dançava num grupo de dança e seu parceiro de coreografias era também seu parceiro na vida. Esse sim ela tinha sonhado para acordar ao seu lado todas as manhãs. Carinhoso e amoroso, sempre muito presente, a fazia feliz. Seus filhos completavam sua a alegria que parecia não ter fim.

Ao despertar, a realidade não era amigável. Saía cedo de casa e constantemente deixava o marido no sofá ainda exalando o álcool ingerido na noite anterior. A falta de um filho lhe trazia grande dor, não podia tê-los. Mas ao ver a situação em que viviam até agradecia a Deus não ter permitido essa bênção. Seria triste criar uma criança naquele cenário. Seu amigo que trazia a boa noticia era sempre um relógio na parede. Ao caminhar seu ponteiro menor para as onze da noite, ela via se aproximando o melhor momento do seu dia, a hora de sonhar.

A dança lhe parecia tão real que vivia aquilo como se sentisse no corpo a leveza dos seus passos ao som da musica que não saia de sua cabeça. Essa musica clássica a acompanhava a todo instante. Aproveitava cada segundo que podia com o marido e filhos desejando sempre que aquilo nunca se acabasse. Nem o cansaço com a dança e o enorme trabalho que os filhos davam a faziam deixa de sonhar em ter uma vida como essa. Às vezes chorava sem que seu marido pudesse entender o motivo, mas ela sabia que logo acordaria e os deixaria.

O acordar lhe trazia dor. Não suportaria muito por tempo essa vida de tristeza e passava seus dias esperando a noite chegar para viver. Envelhecia aos poucos. Sabia que precisava mudar. Sempre que ensaiava uma separação era desestimulada pelas amigas e não era bem recebida pelo marido que a destratava piorando ainda mais seu desgosto por tudo aquilo. Não a restava outra saída senão antecipar esse fim. Tinha medo de morrer, mas tinha ainda mais medo de continuar vivendo daquela forma. Preparou tudo. Os comprimidos que a lhe trariam a libertação já estavam comprados. O relógio apontava dez para os onze da noite. Não se deu outra chance. Ainda conseguiu ver, de olhos turvos, seu amigo relógio apontar onze horas. Estaria livre para sempre.

Thalita acorda assustada. Recorre ao marido que a traz um copo com água. Levanta e vê os meninos brincando com o cachorro no chão da sala. Não acredita no que está vendo, mas ouve a música clássica de sempre.

Não estaria morta? Olhou e viu o relógio parado ás onze horas.

Depois desse dia a Bailarina Thalita nunca mais voltou a ter pesadelos.

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