Imaginação

Dona Vera era muito rígida da criação de Pedro. Mãe solteira e sem os pais para ajudá-la, tentava compensar essas ausências como mais rigor na educação do filho. O medo que tinha dele seguir um caminho ruim na vida a fazia ser mais severa na cobrança de resultados nos estudos e no bom comportamento.

Filho único, Pedro tinha um comportamento imaturo para idade. Sempre junto a colegas de menos idade, por vezes acabava por se envolver em brigas e levava a culpa por ser mais velho. Era um menino simpático e bom de conversa, mas como os demais, exagerava nas brincadeiras e era chamado à atenção pelos professores. Sua mãe era chamada na escola com frequência por problemas de comportamento do filho.

Mal o dia começou e Pedrinho já levou uma bronca. Logo cedo demorou de acordar quando o alarme tocou e atrasou para a aula. No caminho até a escola foi levando um sermão e prometeu não atrasar mais. A segunda já foi mais seria e acabou recebendo como castigo ser proibido de ver televisão. A proibição foi até pouca pelo prejuízo dado à mãe: perdeu o relógio que ganhou de presente a menos de um mês.

A preocupação da mãe com o futuro do filho só crescia e isso fazia com que ela, a cada novo erro dele, fosse mais incisiva ao repreendê-lo. Não era a favor da palmada e apostava no castigo como aliado em dar disciplina ao pequeno. Muitos apontavam que justamente á partir dos sete anos a criança passa a assimilar as punições melhorar o comportamento, mas Pedro ainda parecia não se importar com as restrições impostas pela mãe sempre que ele merecia.

Notas baixas, brigas na escola, vidro quebrado no condomínio em que moravam. Aparentemente coisas de crianças, mas para uma mãe preocupada eram feitos que mereciam punições cada vez maiores. Sem televisão, Internet e nem sequer revistinhas para ler. As horas de Pedro em casa eram ociosas pelos tantos castigos que se emendavam uns com os outros. Sem nada para fazer, passava a tarde deitado na cama. Como seu sono não dava conta de preencher todo esse vazio, vivia a manusear um carrinho pequeno enquanto comia alguns biscoitos ainda na cama.

Em meio aos biscoitos e pensamentos não ouviu a sirene da porta tocar. Sua mãe havia esquecido as chaves e precisou de um chaveiro para entrar em casa, já que Pedro não abriu a porta. Aquilo foi o suficiente para, num ato extremo, sua mãe retirar-lhe seus últimos companheiros, o carro e o biscoito. Após tê-los perdido, ainda precisou ouvir mais um falatório. Ouviu tudo imóvel. Ao final sorriu como se tivesse encontrado uma solução para aquilo. Quando Vera, furiosa, perguntou-lhe sobre o motivo do sorriso ele não a poupou:

- Estou me imaginando comendo o biscoito e brincando com o carrinho. No mundo dentro da minha cabeça posso fazer o que quiser sem que ninguém tire nada de mim. Tudo que imagino é realidade neste mundo.

*Criado a partir de uma conversa real entre uma mãe e seu filho pequeno.