O que me evoca a nova arquitetura caicoense (ou “O que não me evoca”)

Respirar o ar caicoense é como atear fogo nos pulmões. A cada contração do meu diafragma, sinto como se estivesse sucando o hálito aquentado de uma caldeira efervescente. Não sei como explicar os fundamentos científicos que fazem do ar de Caicó ser o que ele é, por isso, apelo antes à metáfora, pois nela o que importa não são os predicados que representa, e sim as experiências que sugere.
O vapor tórrido que (vez ou outra) eleva-se das ruas no “pingo do meio-dia” me remete à imagem de eflúvios dantescos — e quando estou encerrado pelos edifícios do centro da cidade (que arquitetonicamente nada celebram, aludem ou elevam) , associo-os de imediato ao Vestíbulo do Inferno, um dos cenários percorridos por Allighieri e Virgílio na epopei medievale do poeta florentino. Esse local é uma espécie de ante-inferno, é onde ficam os mortos que não podem ir nem para o céu e nem para o inferno. A junção do calor e concreto me leva imediatamente a pensar em uma espécie de tártaro de cimento.
O conjunto arquitetônico caicoense atual parece ser um simulacro desse cenário, e os edifícios nele alojados, são esses mortos que estão condenados ao limbo pela indiferença que dispensaram aos dilemas morais da existência terrena (e a desarmonia com que conduziram suas vidas). A estética dos prédios e habitações da cidade dão testemunho de um flagrante contraste entre um passado em destruição, e um presente cada vez mais afoito em se livrar dos alicerces pregressos, ao mesmo tempo bem afeito às convencionalidades da moda. Os prédios padecem de uma falta de identidade, e adicionam um tom de apatia ao ambiente - como os infelizes no recinto infernal do poema, onde não há nada em suas lamúrias que possa suscitar-nos piedade ou mórbida admiração.
Estes edifícios nada evocam; talvez pela dificuldade em agregarem-se à memória arquitetônica da cidade e à narrativa espiritual do povo do município, onde a casa era o abrigo sacro em que conserva-se os elementos memoriais das relações entre as pessoas. É crescente essa degradação arquitetônica.
A ordem harmônica de outrora que podemos admirar pelas antigas fotografias — e em alguns edifícios que sobreviveram — está cedendo espaço para um desordenado conjunto de caixas de concreto, feias e funestas, que não revelam nada de transcendente ou remetente a uma herança cultural e espiritual socialmente compartilhada. São agora chamadas de “imóveis”, termo genérico que se adapta melhor a conversão destes espaços às necessidades comerciais. Há um lastro memorial muito maior na palavra “casa” do que em “imóvel”. Ou estou errado?
As casas e edifícios sempre foram uma espécie de portifólio das lembranças das pessoas; acho que as residências antigas devem a harmonia de suas formas ao fato de preferirmos guardar nossas lembranças em belos estojos ornamentados do que em feios caixotes de papelão. As habitações devem ser referidas não apenas pelo que servem, mas também por tudo aquilo que evocam.