Meu coração está reclamando do nomadismo

Desde Maio, meu coração tem se comportado estranhamente. Senti, por diversas vezes, taquicardia, palpitações, falta de ar. No começo achei que era o café e chá, que inclusive tomei muito para espantar o frio no Chile. Parei com o café por alguns dias. A palpitação diminuiu um pouco, mas logo voltou. Comecei a ficar com medo e que poderia ser algo sério, mas estava no Chile e decidi esperar retornar ao Brasil!
Depois da passagem pelo Chile, voltei ao Brasil. O coração começou a acelerar cada vez mais frequentemente, o ar começou a faltar com mais frequencia. Depois de passar por algumas cidades e resolver alguns compromissos, voltei para Curitiba. Peguei meu cartão novo do plano de saúde (que foi entregue já na casa de um amigo, por eu não ter mais endereço fixo nesta cidade). Depois de 2 ou 3 dias em Curitiba, o coracão começou a reclamar ainda mais, até que tomei coragem, pedi ajuda para amigos sobre onde poderia ir e me sugeriram um dos melhores hospitais da cidade para cardiologia.
No dia 14/7, depois de um dia com o coração acelerado, palpitações e falta de ar praticamente durante o dia todo, corri para a emergência e relatei para o médico exatamente o que falei aqui em cima. Além disso, contei um pouco da minha rotina, de não ter mais casa e dos desafios do nomadismo digital. Fiz um eletrocardiograma, mediram minha pressão e a princípio estava com a saúde OK.
Ele me deu uma série de exames de checkup, mas adiantou que pelos exames prévios e pelo meu relato, havia um possível diagnóstico: Stress.
Mas como assim? Stress, Fernando?? Você tem a vida dos sonhos! Só viaja!
Garanto que você também pensou nisso agorinha!
Bem, estou escrevendo agora, depois que o diagnóstico e série de exames já foram feitos e estou mais tranquilo. Por incrível que pareça, logo depois da primeira consulta, já comecei a ficar mais tranquilo, tomar algumas medidas e o coração voltou ao normal. A cada exame feito e resultado mostrado como OK, o coração foi melhorando. Ou seja, a ansiedade e stress realmente estavam acabando com minha vida.
Nomadismo não é para amadores
Quem me segue no Instagram ou Facebook, deve ver fotos de lugares surreais e check-ins em hotéis, cidades e cafés incríveis. Bem, este é o lado bonito, que vai para as redes sociais! Tenho recebido muitas mensagens de pessoas que falam que esta é a vida dos sonhos e que elas estão buscando esta vida de paz e tranquilidade. Mas a maioria delas não sabe e talvez nunca verá o lado de trás, o planejamento envolvido, os problemas e minha ansiedade pelas novidades que acontecem o tempo todo. Somado a isso, há a pressão de ter que trabalhar duro, manter clientes e saber equilibrar o orçamento para manter este padrão de vida louco.
Enquanto muitas pessoas encaram viagem como algo para relaxar, se desligar da rotina ou aproveitar a vida, eu encaro só como uma parte da rotina, ou seja, não consigo relaxar mais durante uma viagem, pois tenho que pensar nos próximos passos, no trabalho, no dinheiro e também em como tirar o melhor proveito do lugar que eu estiver. Ou seja, se não estou trabalhando, estou planejando o próximo destino.
O fato de não ter mais casa também exige uma logística complexa para organizar correspondências, as coisas que não viajam comigo, compromissos a longo prazo e, principalmente, itinerário e hospedagem para os meses seguintes. Hoje, eu trabalho com uma organização de no mínimo 3 meses de antecedência, mas já tenho pré-planejado o itinerário para ao menos 6 meses a frente. Como não tenho uma casa para voltar, eu preciso estar planejando sempre a frente sobre os lugares onde ficarei, voos e todos os detalhes de locomoção, alimentação, etc. Tudo isso, alinhado com a expectativa de dinheiro que irá entrar nos próximos meses.
Outro fator que é extremamente pessoal, mas que agrava minha situação é a questão da ansiedade. Ser nômade exige lidar com surpresas, imprevistos, novidades e instabilidade financeira e emocional. Para pessoas ansiosas, como eu, isso pode ser uma bomba (e na verdade estava começando a se tornar nestes últimos meses).
O alerta é um sinal para ajustar a rotina
Talvez eu tenha cometido um dos maiores erros da vida ao não seguir a “cartilha do nomadismo digital”: Tentar viver por no mínimo 2 ou 3 meses em cada lugar para baratear os custos, organizar as emoções e o trabalho. Eu venho de um ritmo de 2 anos visitando algumas dezenas de países. Para conseguir isso, eu tenho ficado entre 15 e 30 dias em cada país ou cidade. Isso tem feito eu ter que manter um planejamento muito mais complexo para a vida e acabar pagando mais caro por hospedagem e locomoção. Para resolver isso, tentarei ficar mais tempo em cada um dos próximos lugares. Isso ajudará a organizar melhor as finanças, trabalho e principalmente fará eu perder menos tempo organizando a minha vida a longo prazo.
Também já começo a fazer alguns ajustes para deixar esta vida um pouco mais “calma”. Entre os ajustes, já diminui o volume de trabalho, isso consequentemente vai diminuir o faturamento, mas não a qualidade de vida e planejamento de viagens, uma vez que somado ao dinheiro que entrará pelo trabalho, ainda tenho uma boa reserva financeira, que só aumentou nestes últimos 2 anos. O chamado “dinheiro de segurança” sempre ajuda a deixar tudo mais tranquilo e permite arriscar mais.
Confesso que o trabalho tem se misturado às rotinas pessoas e diversão e isso tem sido muito ruim, portanto, tentarei voltar a separar claramente hora de trabalho, diversão e de viver uma vida normal. Isso deve ajudar a melhorar a ansiedade e os ânimos.
Irei aproveitar a próxima viagem para tirar ao menos uma semana de férias.
Nômade também precisa tirar férias.
E as férias serão basicamente: não precisar se preocupar com horário de voo, check-in em hotel, reuniões e tarefas para entregar. Nem que seja ao menos por uma semana. A expectativa é conseguir fazer isso na Islândia, em Setembro. Caçar a Aurora Boreal durante meu aniversário vai ajudar a melhorar os ânimos!
Check-ups e cuidados com a saúde serão redobrados. Todo mundo deve ficar muito ligado ao seu corpo e saúde. Um Nômade, deve ficar mais ainda, afinal, ter problemas de saúde durante a viagem pode ser muito mais traumático e caro.
Checkup feito, coração mais tranquilo, é hora de voltar a rotina de nomadismo, agora com cuidados redobrados!
