:: Ilha dos sentimentos desperdiçados ::

Às vezes, a gente mostra aquilo que deveria esconder, e esconde o que deveria mostrar. Com um sorriso no rosto e um beijo na face, nossos gestos nos traem, dissimulada e sutilmente, sempre que agimos sem pensar.

Se eu sinto saudade, mas em vez de saudade, mostro cobrança, a pessoa que deveria se sentir querida e lembrada vai receber apenas cobrança e todo o empoeirado fardo que consigo traz; não o afago consolador da necessidade do reencontro. E eu, que já estou com saudade, sinto ainda mais saudade, porque quem recebeu a mensagem só sentiu peso.

Se eu sinto gratidão, mas a minha gratidão é exteriorizada sob a forma de mera responsabilidade, a pessoa a quem eu tanto sou grato vai receber apenas a tirania da minha exigência, nunca a inspiradora satisfação do meu reconhecimento.

Se eu sinto amor, mas o meu amor é expresso sob a forma de domínio, a pessoa que tanto amo vai se sentir encarcerada na prisão de uma insaciável obsessão, em vez de plenamente segura na liberdade e na singeleza do verdadeiro amor.

E a pessoa que podia se tornar mais próxima, mais minha e mais uma comigo a partir de cada gesto meu, 
Vai se tornando, a cada dia, um pouco mais distante, mais fechada, 
Sempre que tento, mas não consigo, mostrar a essência do que verdadeiramente sinto… 
Pelo simples fato de que eu não mostro o herói, enalteço o vilão; 
Não recito um poema, me exaspero no grito; 
Não canto a canção, forço a rima; 
Não rego a semente, obrigo a terra a fabricar flores; 
Não convido pra dança, exijo a comunhão.

Mostro o monstro, e sufoco o belo do jardim de um Deus que tem prazer em fazer florescer todo dia sua imagem em mim.

E o “eu” que não sabe se expressar vai ficando cada vez mais sozinho, solitário, completamente exilado e perdido na ilha dos sentimentos desperdiçados.

Ah, se pelo menos eu conseguisse me compreender 
E, em me compreendendo, me entender 
Para, em me entendendo, me conter, 
A ponto de te ter, não te perder, e de poder mostrar a beleza do que de fato sinto, 
E vivenciar a potencialidade do que já sou e ainda posso vir a ser em Cristo!

É mais simples do que parece, eu sei.
Basta abraçar. 
Basta beijar.
Basta regar.
Basta estar.
Basta amar.
Basta ser.
Ser no outro, para o outro, apesar de mim.
Basta reprimir toda erva daninha que em mim nasce com a missão de sufocar a vida que Deus quer fazer brotar.

Por Fernando Khoury

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