:: O som do silêncio ::

“Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”
Salmos 46.10

As pessoas não suportam conviver com o silêncio, não conseguem mais ficar a sós consigo mesmas. Por quê? Por que temos tanto medo do silêncio? Não conseguimos mais ficar sozinhos. Desaprendemos a aquietar-nos, a retirar-nos. Nos desacostumamos a ficar em silêncio a ponto de conseguir ouvir as batidas do nosso próprio coração. Precisamos do ruído e da agitação, como quem precisa de ar para respirar. Somos movidos a barulho. Somos atraídos por novas atrações. Há sempre algo acontecendo. O programa novo, o filme novo, a música nova, o aplicativo novo, a notificação do Whatsapp que não para de chegar… Estamos sempre em busca de algo capaz de nos entreter, de fazer o tempo passar, de novas informações. Nos cercamos de todas as novidades, sabemos tudo que acontece ao nosso redor em tempo real, mas estamos cada vez mais incapazes de conhecer o real estado do nosso eu interior.

Fugimos do silêncio porque não conseguimos ficar a sós com nosso próprio eu. O silêncio nos intimida, nos constrange, nos confronta com a nossa verdadeira identidade. O silêncio avilta nossas mais irremediáveis carências. Nos leva a refletir sobre nossa frágil, mortal e miserável condição. Nossa fuga do silêncio é proposital: nos cercamos de barulho e de interferência por todos os lados, como uma estratégia sutil de evitar o enfrentamento com o nosso eu. Não ficar em silêncio é uma forma de silenciar as perguntas que brotam do fundo da nossa alma. Por isso não costumamos passar muito tempo sozinhos, nem cultivamos a solitude. Precisamos de som e de pessoas nos cercando o tempo todo, seja fisicamente, seja virtualmente.

​Essa correria e esse frenesi do dia a dia, como não podia deixar de ser, feriram de morte duas disciplinas tão caras à saúde da nossa espiritualidade: o silêncio e a solitude. Perdemos a capacidade de refletir, de pensar, de meditar, de falar com Deus. Deixamos o barulho invadir o sadio espaço que o silêncio deve ocupar em nossas vidas, nos esquecendo de que os muitos ruídos sempre acabam afetando a qualidade da comunicação em nossos relacionamentos. Um casal não sabe mais o que é simplesmente ficar a sós, olhando admiradamente um no olho do outro. Tem que ter algum programa, algum filme, algum entr​etenimento que os motive a passar tempo juntos. Perdemos o senso de contemplação. Da mesma forma, não sabemos mais o que é ficar a sós com Deus. Não sabemos mais desfrutar de uma comunhão a dois que transcende a tudo, de uma experiência de solitude cósmica e contemplativa perante o Criador.

Esse cenário me faz lembrar de uma pergunta que fizeram para Madre Teresa de Calcutá: “O que a senhora diz para Deus em suas orações? — “Nada, eu só escuto”, respondeu ela. E o que Deus diz para a senhora em suas orações? — “Nada, ele só escuta”. Madre Teresa parece ter conseguido experimentar, como poucos, a beleza de se cultivar uma solitude cósmica e contemplativa perante o Criador. Madre Teresa sabia que a quantidade de ruído em nossas vidas contribui não apenas para o incremento da nossa incapacidade de ouvir Deus sussurrando aos nossos corações, mas também para aumentar a nossa inabilidade de despir nossa alma perante Aquele que conhece todas as coisas. Em algum momento da nossa história, perdemos a capacidade de lidar com o silêncio. E o pior: passamos a tratá-lo como algo banal, constrangedor e desnecessário. Como se o silêncio e a solitude fossem sinônimos de solidão. Não, não são.

Pense na música. A música nada mais é que a combinação de momentos de som com momentos de silêncio. As mais brilhantes sinfonias e harmonias não seriam tão brilhantes se não contivessem um momento de pausa, de silêncio. As mais belas canções não seriam tão belas sem o silêncio que existe antes, durante e após algumas de suas notas e acordes. Beethoven, Mozart e Villa-Lobos, com toda sua genialidade, souberam extrair do silêncio o melhor que ele tinha para oferecer, enobrecendo, aguçando e valorizando ainda mais a parte audível das canções. Chaplin captou essa verdade, ao dizer que “o som aniquila a grande beleza do silêncio”. Tom Jobim, indo ainda mais longe, poetizou que “a música é o silêncio que existe entre as notas”. De fato, o silêncio nos permite ouvir melodias que só ficam audíveis a partir do momento em que a música para de tocar.

Na música, o silêncio e as pausas, quando bem utilizados, propiciam um momento meditativo e reflexivo único. No mundo espiritual não é diferente: quando aprendemos a cultivar o silêncio, criamos um espaço meditativo e reflexivo preparado especialmente para ser preenchido pelo próprio Deus. É nesse momento que geralmente conseguimos ouvir o que Deus tem para nos falar, simplesmente porque diminuímos o volume de ruídos e de agitação externa perante o nosso coração. É nesse momento que geralmente somos edificados, revigorados, tratados e transformados. No silêncio.

Jesus sabia disso. Não é à toa que o Mestre costumava se retirar para lugares solitários a fim de orar (Lucas 5.16), e incentivava seus discípulos a fazer o mesmo: “mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará” (Mateus 6.6). Infelizmente, a impressão que eu tenho é que você e eu estamos vivendo na contramão do que Jesus e sua Palavra nos ensinam. De tão acostumados que estamos com a agitação e com o ruído que nos cercam, começamos a procurar Deus no barulho, na correria, no pirotécnico, no que chama nossa atenção. Nos condicionamos a buscar a Deus somente nos ajuntamentos e na coletividade. Como se Deus fosse uma campanha bem produzida de marketing, que trata de pessoas apenas em massa, e não na individualidade. Perdemos a beleza do silêncio. Perdemos a beleza que existe em conversar com o nosso Pai no silêncio, em secreto, com as portas do coração fechadas para a agitação e para o barulho, mas abertas para as melodias suaves de Deus.

​Temos em nós muito de Elias — muito mais do que imaginamos. Em sua jornada de profeta do Senhor, Elias tinha se acostumado a ver Deus agindo no sobrenatural. Suas marcantes experiências foram travadas no campo do miraculoso. Como homem de Deus que era, Elias antecipou a falta de chuva que assolaria a terra e foi alimentado por corvos. Elias multiplicou o último punhado de farinha e de azeite que uma pobre viúva tinha para alimentar seu filho e ressuscitou esse mesmo filho quando, mais tarde, veio a adoecer e morrer. Elias viu fogo cair do céu, após pedir a Deus que se manifestasse perante os profetas de Baal e de Aserá. Elias antecipou que a chuva, depois de três anos e meio de seca, finalmente voltaria a molhar a terra. Elias, tomado pelo poder do Senhor, conseguiu alcançar e correr mais que cavalos. Feitos extraordinários, que só poderiam mesmo ser realizados por um Deus extraordinário e todo-poderoso. ​

​Mas diante de uma ameaça de morte vinda de Jezabel, o destemido e corajoso Elias, após passar por todas essas extraordinárias experiências, teve medo. Fugiu para o deserto. Elias estava exausto física, emocional e espiritualmente. Cansado de tudo e em estado de depressão, Elias sentou à sombra de uma árvore e orou a Deus pedindo a própria morte, mas Deus não atendeu a oração de Elias, e não o deixou morrer! Enviou, por duas vezes, seu anjo para alimentá-lo e revigorá-lo para uma viagem de 40 dias e 40 noites até o Monte Horebe.

Lá chegando, Elias de imediato entrou numa caverna e passou a noite ali. No escuro e no silêncio, sozinho… mas não só! Deus estava lá. E começou a conversar com o profeta? “O que você está fazendo aqui, Elias?” Sincero, Elias despejou sobre Deus todas as suas dores, decepções e sofrimentos. Depois de ouvir tudo, Deus pediu ao profeta que saísse da caverna. O motivo? “Eu vou me manifestar a você, Elias. Saia da caverna e fique atento, pois eu vou passar”.

E um fortíssimo vendaval despedaçou pedras e rochas, mas o Senhor todo-poderoso que Elias conhecia não estava no vento devastador. Um terremoto estremeceu as bases da terra, mas Deus não estava no terremoto. Um fogo consumidor inflamou suas chamas diante da face do profeta, mas aquele mesmo Senhor todo-poderoso que havia se manifestado através do fogo há alguns meses atrás não estava mais nele. Então veio o murmúrio de uma brisa suave. Deus não estava no vento, no terremoto, nem no fogo. Deus estava no silêncio!

O Todo-Poderoso se manifestou numa voz de calmaria suave, como uma pausa inesperada em meio à indomável sinfonia de poderosos fenômenos naturais. Como um golpe suave e surpreendente, Deus fez uso do silêncio para criar em Elias um espaço vazio o suficiente para que, assim, ele pudesse escutar e sentir o que antes, na agitação e nos ruídos, era simplesmente inaudível e imperceptível. Nesse momento, Elias foi edificado, tratado e transformado. Deus, através do silêncio, criou um espaço meditativo e reflexivo em Elias, a fim de que esse espaço pudesse ser preenchido e revigorado pelo próprio Deus. É isso que Deus faz: cria em nós aquilo que Ele sabe de que precisamos para viver.

É possível que você esteja buscando a Deus no barulho e na agitação, mas Deus esteja querendo falar com você — e tratar de você — no silêncio. Lembre-se: é quando ficamos em silêncio que ouvimos o que Deus talvez já estivesse nos falando há algum tempo, mas antes simplesmente não conseguíamos ouvir. Que, a partir de hoje, paremos de procurar a Deus apenas nos ventos, nos terremotos e no fogo. Que você e eu aprendamos a nos aquietar e a diminuir o volume dos ruídos que nos cercam. Que nós tenhamos prazer em ficar a sós com nosso Pai e com Ele desfrutar de uma comunhão a dois que transcende a tudo. Que possamos ouvir o silêncio a uma altura nunca antes ouvida. Que possamos fechar as portas do nosso coração e cultivar uma solitude cósmica e contemplativa perante o nosso Senhor. Que não tenhamos mais medo do silêncio. Pois ter medo do silêncio é ter medo de ficar frente a frente com o Criador, o Deus Todo-Poderoso, o Deus Amor.

Por Fernando Khoury

Ouça a mensagem desse texto numa reflexão bíblica de 30 minutos: http://www.ipbrecreio.org.br/index.php?option=com_sermonspeaker&view=sermon&id=298


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