Homofobia tem cura?

Você está só fazendo gênero?

Em tempos de Bolsonaro, um amigo do Facebook me confrontou, dizendo “e você vai me dizer agora que o terceiro sexo é normal?”

Em primeiro lugar, é preciso levantar a questão do que se entende por “normal.” A palavra significa “de acordo com a norma.” (Coitada da Norma, ela sempre é a culpada de tudo…). E qual é a norma?

Podemos considerar a definição estatística de norma (aquilo que corresponde à maioria), mas então encontramos um problema, que é a definição do grupo a ser considerado para a medida estatística. Exemplos: num baile gay, ser gay é a norma; num hospício psiquiátrico, ser doente mental é a norma, pois os médicos e enfermeiros são em menor número; no Congresso Nacional, ser corrupto é a norma, pois a maioria dos deputados e senadores estão sendo processados por corrupção.

Logo se vê que o critério estatístico de normalidade acarreta uma série de questões morais que o tornam problemático.

Melhor, portanto, pensar num outro tipo de norma. Seria a heterossexualidade uma característica padrão da natureza humana? Seria algo considerado naturalmente desejável, para procriar (por exemplo) e com isso propagar a espécie?

A moral judaico-cristã-muçulmana (as religiões monoteístas mais conhecidas no mundo) nos fala em dois sexos: masculino e feminino. Todavia, as culturas dos índios brasileiros (e dos índios norte-americanos também) falavam há séculos, de “cinco almas:” masculina, feminina, masculino-feminina, feminino-masculina, e mista. Ou seja, a versão binária parece ter sido uma invenção (ou melhor dizendo, uma ficção) dos sacerdotes cristãos, judeus e muçulmanos. Até porque se sabe que historicamente já havia homossexualismo, por exemplo, na Grécia antiga e também no Egito. As mitologias gregas e egípcias falavam, ambas também, em homossexuais, andróginos e hermafroditas, tanto entre humanos como entre os deuses.

Hoje em dia sabemos que até a classificação em cinco gêneros é simplista demais; a realidade é bem mais complexa do que isso. Todo mundo, sem exceção, tem uma parcela dita masculina e uma parcela dita feminina. Até Pepeu Gomes e Caetano Veloso já sabiam disso, desde o século passado. Inclusive o Bolsonaro tem sua parcela feminina. Para cada pessoa, a proporção varia. Pode ser 95% masculino e 5% feminino para uns; ou 50–50; ou qualquer proporção intermediária.

A questão central, entretanto, não é essa. A questão central é como você se sente em relação a tudo isso. É complicado demais? Se você se acha homem, sente medo da sua parcela feminina? Acha que isso, de alguma forma, diminui o seu valor como pessoa?

Daí surgiu o termo “homofóbico:” ter medo do homossexualismo.

Dá para se ter uma discussão interessante sobre o que é considerado “sadio” e o que é considerado “doença.”

Há quem diga que o homossexualismo é uma doença e que pode ser curado. Ou será que a homofobia é uma doença e que pode ser curada? As fobias em geral são consideradas doenças e como tal existem vários tratamentos oferecidos para quem sofre disso.

O problema de cada um (como cada um se sente em relação ao tema) precisa ser resolvido por cada um; um psicólogo pode ajudar.

O problema da sociedade e como lidamos com isso enquanto comunidade precisa ser resolvido pela discussão social. E a questão central disso tudo é a aceitação ou rejeição da identidade de gênero e do homossexualismo. Aliás, vale notar que são duas coisas diferentes.

Homossexualismo é ter relações sexuais com alguém do mesmo sexo. Em termos práticos, quando o sexo é praticado em recinto privado, entre dois adultos e de forma consensual (ambos concordam), ninguém mais tem nada a ver com isso. Vale tudo que ambos (ou mais) façam de comum acordo. Não é da sua conta.

O que parece incomodar aos homofóbicos, pois lhes causa temor, não é a prática sexual, mas sim o comportamento das pessoas na comunidade, ou seja: um homem que se comporta de maneira afeminada, ou uma mulher que age de forma masculinizada. Isso pode não ter nada a ver com a prática do sexo. Há homens afeminados que são heterossexuais; e homossexuais que não são afeminados.

Os homossexuais não-afeminados passam despercebidos. O mesmo ocorre com as lésbicas que não se comportam em público de maneira diferente do padrão esperado pela comunidade.

O problema, portanto, está no comportamento percebido como sendo “anormal,” ou seja: diferente da norma que cada um acredita conhecer. E o problema maior não está no comportamento dos outros e sim no como cada um se sente quando vê as pessoas se comportarem de certa maneira. Aquilo dá medo? Raiva? Nojo? Medo de fazer a mesma coisa e não gostar mais de si mesmo?

Se a pessoa se sente mal, isso é uma coisa. Como cada um lida com seus sentimentos, isso é outra coisa; e é aí que a coisa pega. Você pode não gostar de ver dois homens se beijando em público, mas isso é problema seu. Você pode escolher olhar para o outro lado, fingir que não viu, ou simplesmente observar e nada fazer. O problema acontece quando você expressa seu desgosto de maneira agressiva, sem respeitar os outros. Por exemplo, se você resolve bater nos dois, ou xingar, ou mesmo comentar em voz alta: “que pouca vergonha!”

A intolerância é que se torna o problema. Você pode discordar, mas quando você transforma sua discordância em agressão, é isso que precisamos combater como sociedade, pois é essa agressão que acaba com a comunidade.

Você quer discutir os padrões de comportamento masculino e feminino? A discussão é válida e deve acontecer, sim. Só não vale é agredir e desrespeitar quem discorda de você. E, principalmente, não cabe agredir aqueles que se comportam de maneira diferente, se eles não incomodam ninguém.

Eles mexem com sua homofobia? Pois vá se tratar e o problema desaparece, eles não têm nada a ver com isso.

Vejamos, entretanto, o reverso da medalha.

A identidade de gênero existe, sim. Faz parte do desenvolvimento humano estabelecer uma identidade de gênero. Ocorre, todavia, que isso não é tão simples como escolher entre “ser homem” e “ser mulher.” Cabem muitas variações, como mencionei. Porém, em meio a tudo isso, os pais e mães têm um papel importante: devem orientar os filhos na infância e adolescência, para ajudá-los a desenvolver sua identidade de gênero como parte de sua personalidade. Na maioria dos casos, significa que os meninos desenvolverão uma identidade predominantemente masculina e que incluirá aspectos femininos, em maior ou menor grau. E as meninas desenvolverão uma identidade predominantemente feminina, que incluirá aspectos ditos masculinos, em maior ou menor grau.

O que não cabe é rejeitar como párias aquelas pessoas que desenvolvem uma identidade de gênero diferente daquela adotada pela maioria. Diversidade é isso: aceitar o diferente como tendo o seu valor, tanto quanto o valor de qualquer integrante da sociedade. Vai ficar mais fácil para todos conviverem bem quando aprendermos a conviver com a diversidade.

E os homofóbicos não devem ser tratados como párias da sociedade; há que tentar entender e ajudar, pois eles estão sofrendo com o seu medo. Xingação de parte a parte não ajuda.

O que não se deve tolerar, então? O incitamento ao ódio. Tanto de um lado, quanto do outro. O incitamento ao ódio é o que leva ao desmantelamento do tecido social. Portanto, é o que precisa ser combatido. Esse combate, no entanto, será mais eficaz se soubermos entender e tratar os motivos que levam as pessoas a se comportarem de forma homofóbica e antissocial. Não cabe prender e espancar os divergentes, nem tampouco prender e espancar os homofóbicos. Digamos que não se resolve o nazismo colocando todos os nazistas em campos de concentração.

É preciso, também, acabar com o patrulhamento daquilo que se considera “politicamente correto.” Precisamos de mais tolerância e flexibilidade, para evitar que isso se torne uma forma disfarçada de fascismo. Ouvir o outro, entender e discutir sem desrespeitar, são essas as atitudes que nos levam a uma sociedade mais justa.

É claro que isso não é simples nem fácil. Se fosse, não teria graça… Mas precisamos discutir e aprender, para fazer um mundo melhor.