O velho índio ambientalista

Harald Sioli, pesquisador alemão e um dos maiores estudiosos dos rios amazônicos, passou boa parte de sua vida na Amazônia e pouco antes de falecer revelou: “… aquele período torna-se vivo novamente até em bastantes detalhes. É uma experiência engraçada e compreendo mais nitidamente que aqueles anos me estamparam definitivamente, de forma que nunca mais posso me integrar na chamada “civilização”. Tive muita sorte mesmo na minha vida”. Não tive o prazer de conhecer o professor Sioli, mas sempre me identifiquei com seu pensamento.

Os anos que passei na Amazônia realmente foram divisores de água na minha vida. Lá deixei alguns paradigmas; esses pensamentos equivocados que de tão repetidos, perigam até virar “verdades”. E tive contato com informações novas, aprendizado esse cada vez mais útil atualmente. Apesar da área ocupada pela Amazônia Legal compreender 60% do território brasileiro (isso mesmo, mais da metade do Brasil é Amazônia), boa parcela dos brasileiros desconhece completamente a maior parte do seu próprio país. Não digo apenas desconhecimento por nunca terem estado lá, mas também pela ignorância e falta de interesse por qualquer assunto que venha daquela região. Não é à toa que alguns moradores amazônicos, sentem-se pertencentes a outra nacionalidade, como foi bem lembrado pelo personagem no filme A Floresta de Jonathas. Com exceção é claro na época das eleições, pois é quando são procurados como qualquer outro brasileiro.

Dentre as quebras de paradigmas pelas quais passei por lá, a primeira diz respeito ao tamanho. Tamanho da distância da região onde fui criado; também o tamanho dos rios (o que é conhecido como rio pela maioria dos brasileiros, na Amazônia é apenas um igarapé); assim como o tamanho da biodiversidade (megabiodiversidade) e o tamanho da diversidade cultural. Mudaram-se para mim os parâmetros de tamanho e assim, parece que o Brasil acabou ficando um pouco menor e também mais interessante. A outra quebra de paradigma foi aprender que Amazônia, refiro-me agora ao bioma, é a junção dos corpos d’água com florestas, não tem como começar a entender a Amazônia, sem antes compreender isso. Os rios e florestas formando apenas um organismo, totalmente interligado e dependente, consequentemente propiciando uma relação ecológica bem complexa de sua biodiversidade. É mais fácil perceber isso quando você conhece um igapó (floresta alagada). E pelo menos para mim essa primeira sensação foi mágica.

Deixando para trás qualquer estereótipo ou lenda, a maioria da população amazônica leva uma “vida aquática”. Isso quer dizer que boa parte dos moradores tem na água, praticamente toda forma de ligação com outras localidades, logo, suas estradas são os rios. Não precisam de carros, apenas pequenas embarcações para se locomoverem. Adequam-se à subida e descida dos rios e isto influencia em praticamente tudo, da agricultura à pesca artesanal, passando pelo extrativismo. Deste modo, quando feito da maneira correta, podem sim retirar das águas e das matas muitas fontes de sobrevivência. Em função da falta de telefonia, muitas regiões ainda dependem de notícias vindas pelo rádio ou do boca a boca das embarcações (batelões e recreios), que vão de comunidade em comunidade levando a maioria dos suprimentos essenciais. Mas mesmo com a dificuldade de acesso, muitos caboclos, com toda razão, ainda preferem a vida em comunidades isoladas ao abandono nas periferias das grandes cidades.

Tive a oportunidade de passar algum tempo em comunidades no interior da Amazônia e viver um pouco o cotidiano da vida ribeirinha. Daquelas belezas registradas nas fotos aos contratempos gerados pela falta do chamado conforto. Mas ainda é possível recordar bem, depois de um dia inteiro de trabalho, deitar numa rede no flutuante e contemplar um céu sem nenhum resquício de luz urbana. Sair bem cedo para pescar na floresta alagada e almoçar um peixe assado que para ser mais fresco, só se estivesse vivo. Também me adaptar às poucas horas de luz propiciadas pelo gerador elétrico (isso quando sobrava um pouco da gasolina do motor rabeta), pois ao contrário era só céu estrelado mesmo. Por fim ouvir aquelas histórias de peculiaridades amazônicas que não são esquecidas nunca. Foram alguns anos nessa vida, sempre consciente de que não teria essa experiência em nenhum outro lugar do mundo. E a partir daí consciente também de que é possível viver sem luxo com certa dignidade.

Dentro do contexto ambiental, é interessante citar o exemplo das tartarugas de água doce, animais historicamente utilizados como fonte de proteínas pelas populações indígenas e ribeirinhas. Porém com a pressão do comércio ilegal, essas populações de quelônios declinaram incrivelmente nas últimas décadas. Não sumiram ainda pela intervenção de alguns projetos conservacionistas que aliados às populações tradicionais (as maiores interessadas na preservação natural), estão conseguindo alterar a realidade. Situação que se repete com outros recursos naturais protegidos e em outras regiões do país. Forma de atuação de que os índios já se utilizam há muito tempo — consomem sim, porém com moderação para não faltar.

Levando-se em conta a omissão total dos governos somada aos dados incontestáveis sobre a influência negativa dos impactos humanos, a sociedade de certa forma passou a ser um elo nessa batalha ecológica. Surgiram incontáveis programas conservacionistas (uns bem atuantes outros nem tanto), liderados muitas vezes por cidadãos comuns preocupados com a questão ambiental. Começaram a comprar essa briga e realmente passaram a obter resultados positivos expressivos. Mas é crucial ressaltar uma parte fundamental nesse elo, que se tornou possivelmente o principal ator na questão ambiental no país: o voluntário. De todas as origens, vertentes e com objetivos específicos variados. Porém com o mesmo intuito, proteger o que é seu de direito. Talvez o voluntariado ambiental seja a maior chance de alteração do cenário apocalíptico que se desenha à nossa frente.

Mesmo com todas as informações alarmantes sobre o aumento do desmatamento e a implantação de equivocados grandes complexos hidrelétricos na região amazônica, a Amazônia ainda detém a maior quantidade de riquezas naturais de um país conhecido principalmente por sua natureza. Esse fato não tem como negar. Logo, os maiores esforços conservacionistas devem mesmo ser direcionados para lá. Neste contexto, é interessante tentar compreender mais uma vez a lógica amazônica. Aquele entendimento de que os recursos naturais estão intimamente ligados às paisagens nas quais se apresentam, assim quando apenas um elemento dessa teia vier a faltar, vai haver um desequilíbrio com consequências maiores. Talvez o que falte para as regiões brasileiras, que não fazem parte da Amazônia, seja exatamente a compreensão dos componentes do meio ambiente como um todo. E isso os “simples” habitantes do interior amazônico (aqueles que realmente dependem dos recursos naturais), sejam índios ou ribeirinhos, já aprenderam há tempos. Lição assimilada muito antes de cidadãos com bagagens intelectuais bem maiores.

Com todas as repercussões decorrentes da tragédia ambiental não só de Minas Gerais, mas de todo o Brasil, é importante lembrar a nossa lei maior. Dentre os 240 artigos que compõem a Constituição Federal, o que trata do tema Meio Ambiente é o de número 225, ficando na frente apenas dos artigos que tratam dos idosos e dos índios. A princípio é difícil não concluir que para o poder público, a ordem dos artigos na nossa principal legislação corresponda mesmo à ordem de importância dos temas. Imagine só a figura de um Velho Índio Ambientalista — pobre coitado!