A beleza de não se ter certeza e a vantagem de duvidar

Vociferou palavras de ódio. O braço balançava a mão com o dedo em riste apontando para o meu rosto. Segundo ele, eu estava “errado”. Como se tivesse vindo do futuro e visto um possível desastre causado por minhas atitudes. “Você está errado”. Com cada vez maior intensidade, frases do tipo se repetiam. Cuspiu em mim suas “certezas”. Eu só disse “não sei”. Penso que posso estar errado, frequentemente estou.

A coragem de certas pessoas em estufar os peitos, dizer o que acha sobre alguma coisa e acreditar ter plena razão, me assusta bastante. O mais questionável ainda é quando se afirma que o outro está errado e o único argumento é esse mesmo “achismo”. É admirável, que, mesmo Sócrates, mente de inteligência nítida e esclarecida, admitia suas incertezas quando dizia aos seus seguidores: “Sei apenas de uma coisa, e esta é que não sei coisa alguma”. É consenso que não ousamos querer ser mais inteligentes do que o clássico filósofo, certo? Então porque queremos tanto ter certeza do que sabemos? Ou ainda, mais que querer ter certeza, ostentar uma certeza que de fato não se tem?

A ilusão da plena certeza é uma das piores coisas que pode atingir uma pessoa, a isola em um mundo cercado de ilusões sobre o próprio saber. Fecha as portas dos questionamentos. Em contrapartida, a abertura ao questionamento, ao “será?” e ao “e se…”, abre portas para uma cultura de empatia e humildade. Aliás, questionar talvez seja a maior das virtudes quando se trata do que realmente precisamos fazer em relação às nossas opiniões.

Na linha de pensamento cartesiano, em que somos convidados a duvidar de tudo para aproximar-se da resolução de um problema, somos colocados em posição de procurar a verdade por meio da razão, rejeitando todas as ideias e opiniões. Duvidando sempre, até que se prove o contrário. É na dúvida, que, segundo Descartes, o sujeito se descobre pensante: “penso, logo existo”, do latim cogito ergo sum. Cogitar é a certeza que o sujeito tem de que se está vivo.

Quando temos certezas demais em algo, qualquer coisa que bagunce isso, vai zerar todas elas e a credibilidade se desmancha. Diferente quando deixamos margem às dúvidas. E quando se cresceu sabendo que algo para ser verdadeiro precisava ser provado? Quando a discussão da fé entra em jogo e não se encontra fatos?¹ Tudo vai por água abaixo, diferente quando já se acostumou com a dúvida desde sempre. Tristemente, matamos assim tudo que é simbólico, lúdico e/ou imaginário. Que graça tem o mundo sem isso?

Nos acomodamos em saber das coisas. Que horas são, onde estou, para onde estou indo agora e o que farei depois da leitura desse texto. Temos bastantes certezas práticas em mãos. Talvez seja a hora de tentar um “não sei”. Realmente, não sei onde estou indo nem aonde isso vai dar. Não sei sobre o que estamos falando e nem se o que eu penso acerca do tema da discussão é o certo.

Por vezes, tudo o que temos em mãos como argumentos é o que estabelecemos como “minhas opiniões”. Estas não passam de produto de segunda mão vindo de nossos pais, educadores, mídia e demais influenciadores. No final, será que essas opiniões são mesmo minhas e verdadeiras? Será que contribui para uma discussão o aglomerado de ‘achismos’ criados? Mas duvidar, significa pensar. E pensar não é das coisas mais fáceis. Nosso cérebro é instintivamente programado para pensar o menos possível, gastando o mínimo de energia. Logo, é mais fácil acreditar. Mas acreditar no que? Mais fácil ainda é acreditar nos próprios achismos. A dificuldade é fácil de ser compreendida quando o que se está em jogo é ferir o próprio ego e admitir que o outro possa ter razão. Digno é quando percebemos que não somos ninguém para apontar que alguém está errado.

Não digo que não devemos ter certeza de nada. Aponto apenas: é bom abrir-se a novidade que pode vir com a dúvida. Às descobertas do que ainda não se sabe. Não há conhecimento que não passe pela via da dúvida. Talvez, devemos ser um pouco mais como Tomé, duvidar, e submeter a afirmativa à peneira das evidências. Para, assim como ele, ter a coragem de mudar, quando as evidências nos mostram que estamos errados. A defesa ferrenha de qualquer ideologia ou crença me parece produto de uma ignorância exorbitante. Não digo que não se deve agarrar-se a determinadas certezas. O problema está no extremismo de pensar que só eu estou certo e não deixar a mínima margem de liberdade para o pensamento do outro. O que me parece é que seja difícil colocar-se no lugar do outro e pensar que quem pode estar errado na situação sou eu. Em suma, admitir ao menos incerteza sobre qualquer questão séria que seja, é o mínimo que se pode fazer diante de diversas situações². A certeza nos faz parar, a dúvida nos move. Penso assim, mas posso estar errado.

A dúvida me pegou pelas mãos. Me levou embora. Me fez balançar a cabeça positivamente diante de todos aqueles achismos. O conflito se findou. O outro percebeu, com o tempo, que estávamos ambos errados. De maneiras diferentes.


Referências

¹ O’MALLEY, William J. Ajudai a minha descrença. Tradução Euclides Luiz Calloni. São Paulo: Paulus, 2012

² CARNEGIE, Dale. Como fazer amigos e influenciar pessoas.Tradução de Fernando Tude de Souza — 52 ed. — São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2012

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