Aprecie as demoras


Sentado no banco da catedral percebo o quanto o mundo se aquieta e é diferente aqui.

Considero-me um cara apressado, de passos largos e coração agitado. A vida em nossos tempos pede isso da gente, e quando informações parecem se multiplicar e nos atingir cada vez em maior frequência, temos que absorver, filtrar e processar tudo. O ser humano ainda não se adaptou bem a isso, nossas relações nos pedem e nos cobram o imediatismo, mudam nosso ritmo, talvez o que nos falta é parar um pouco e deixar o tempo passar parado em algum lugar em que possamos nos desligar de todo ruído e ouvir um som silencioso. Quantas vezes passo em frente a catedral mas com o pensamento em chegar logo ao destino que quero acabo deixando para trás um momento de admiração Àquele que detém o tempo — talvez nesses dias, eu tenha mesmo colocado outras coisas a frente do que realmente me importa. Estamos presos a essa modernidade liquida, onde o tempo escapa por entre os dedos escorrendo nossa vida fora. A cidade me sufoca. Dentro da catedral parece que o mundo se acalma. As paredes grossas filtram o som da rua. O som interno é um canto gregoriano que nos faz sentir em alguma catedral europeia, um pouco perdidos nesse mesmo tempo. Obras de uma arquitetura humana com desígnio de firmar a comunicação do homem com Deus. Afinal, não é isso religião? Ligação, comunicação… Tudo conspira para a mais perfeita harmonia e facilitação de um diálogo com o Sagrado.

A essa altura estou ajoelhado diante do Santíssimo. O criador se fez pão e deixa ser guardado dentro de uma caixa de ferro bem ornamentada. A luz do pôr do sol chegou na hora certa para fazer sua refração nos vitrais, trazendo cores e sombras que inspiram oração. Tudo dentro da catedral parece acontecer mais devagar, da observação dos objetos sagrados aprendo a entender as demoras de Deus na minha vida. Parte do olhar demorado da imagem de Nossa Senhora, ao sofrimento do Cristo na cruz que parece ainda não ter se findado, e vai até os passos lentos de uma senhora idosa que caminha ao Santíssimo para terminar suas orações concluindo-as com um sinal da cruz intenso e demorado. Demoras! Ah, as demoras… Quantas vezes quis as coisas para ontem, por um milagre simples as obtive na hora, e tempos depois vi que não era aquele o momento certo… Ainda quero aprender a esperar.

Mais um olhar devagar sobre o ambiente e me chama atenção a mesa dos pedidos, sob os papeis recortados e com uma caneta, mãos enrugadas do tempo com letras trêmulas escrevem preces carregadas de humildade, que serão encaminhadas para debaixo do olhar da figura do Cordeiro no Santíssimo. A prece, desconheço. O motivo? Poderia supor mil, e todos mais importantes que os meus. Mas o meu pedido hoje é: demore! O quanto quiser. Faça com que se exercite em mim o dom da paciência.

Me encanta a ideia de escrever um pedido no papel e o depositá-lo numa caixa para que Deus “leia”. Se não é a oração uma conversa direta com Ele, por que precisamos escrever um bilhete? Para que o onisciente não “esqueça”? Careço de buscar explicação. Hoje, confesso que ainda não entendo por completo esse gesto, do mesmo modo que não entendo a grandeza de Deus, mas mesmo assim não deixo de acreditar Nele e levanto-me para escrever a minha prece. Aguardo a senhora a minha frente terminar calmamente sua ação simples naquele pedacinho quadrado de papel branco. Escrevo no bilhete e deposito na urna de pedidos. Gesto simbólico. Que Deus goste; eu caprichei na letra!

Encontrei nesse ato um modo de exercitar a minha fé, de depositar minha esperança no aparentemente impossível, de acalmar a pressa dos meus dias, do mesmo como aquela senhora deposita o bilhete já com a certeza da realização de seu pedido. Não crer como quem se lança do alto de um penhasco segurado por uma corda elástica, que por mais que seja perigoso, tecnicamente os riscos são baixos, mas crer como quem coloca sua embarcação ao mar ainda que com a certeza de uma tempestade a chegar, ou crer de braços abertos como quem espera o ente querido voltar são e salvo da guerra, sem saber a que horas, mas confiante de que vai chegar.

Afinal, fé é crer no que nossa inteligência humana não é capaz de ver. E a resposta que minha alma ouve é: deixe as pressas, aprecie as demoras, que por mais que eu não entenda, há uma bela razão por trás dessa espera. Volto a rua. Volto a rotina. Aqui é meu lugar. Impossível viver totalmente o Sagrado quando ainda temos os pés nessa terra, não é nossa hora. E a senhora? Lá se foi. Sem pressa…

Nota: Em “esperar em Deus” e “apreciar as demoras” ha um tanto de agir. Nenhuma das atitudes deve ser feita, a não ser no âmbito simbólico, de forma parada. Esperar em Deus carece de ação pessoal.