Nada entre dezembro e janeiro
Parte 1: Dezembro
Ilusória essa forma que temos de contar o tempo, como se do final de dezembro ao inicio de janeiro nossa vida mudasse além do que o calendário nos impõe, porém torna-se apenas uma forma de nós mesmos nos delimitarmos para traçar o inicio de possíveis projetos que passamos a executar durante um ano e que os terminaríamos — ou pelo menos deveríamos terminar — no final do mesmo. É até injusto contar os ciclos de nossas vidas conforme o movimento de transladação da Terra ao redor do Sol. Nossa vida começa quanto entramos numa faculdade e acaba no momento em que perdemos um amigo, começa num namoro e termina ao fim de um livro. Nossos ciclos não acabam no dia 31 de dezembro pra começar no 1 de janeiro.
O final do ano me assusta porque me lembra os projetos que tracei para aquele que seria o ano das mudanças, e se eu fosse ver o papel que anotei meus planos, não encontraria nem metade com um sinal verde de OK — mas em compensação daria de cara com as coisas que aconteceram que eu nem sequer tinha planejado.
Passei alguns réveillons a beira-mar com um grupo de pessoas, e num momento me retirava sozinho pra observar o céu e pensar sobre o quão pequenos somos, e ainda, o quão pequeno eu sou. Perdi-me naquelas vezes — e ainda vou me perder muito— imaginando o infinito, o que nosso cérebro é incapaz de compreender , uma vez que tudo o que conhecemos tem começo e fim, torna-se impossível para nós imaginar o que é ser eterno ou infinito. O vento, o imenso céu escuro, algumas vozes alegres a distância. Nada no céu muda. O mar não para e volta de novo. As estrelas não param pra pensar sobre o ano que passou e voltam a brilhar. Mas nós,
sim. Paramos, saímos, comemoramos o fim do ano e voltamos pra casa, com novas metas, esperanças e promessas pra si mesmo de que faremos aquele ano ser diferente.
Parte 2: Janeiro
Entrei no mar, era o primeiro dia do ano, sentia as ondas baterem em mim, tentava pegar algumas e nadar um pouco, desajeitado entrava-me água pelo nariz e olhos. Fazia daquilo como que um gesto para receber as águas novas do ano que estava chegando, não como um gesto supersticioso, mas simbólico, de acolher o novo e deixar o mesmo me lavar do que havia de velho em mim. Talvez o ano novo seja necessário para isso, e por mais que isso não nos afete fisicamente de nenhuma forma, acabamos aceitando isso como um ciclo pessoal e definimos como padrão o término de um ano ser o término de uma era de nossas vidas e isso torna se apenas um chance de rever nossos conceitos e nos acertar para os dias vindouros: talvez porque se um ano tivesse o dobro de dias nossa vida teria e metade de novas chances e metas passíveis de serem conquistadas.
