Facilitação: Uma habilidade para o próximo Século

Por Héctor Villarreal Lozoya

Colaboração e facilitação são a única maneira pela qual os seres humanos, como espécie, poderão chegar ao século 22.

Desde que ouvi estas palavras de Gary Rush na Conferência da IAF em Halifax (Canadá), uma questão permaneceu em minha mente: a facilitação é uma habilidade que todos deveriam desenvolver? E se for, qual é o futuro dos facilitadores e da facilitação como profissão?

Para responder a essas perguntas, primeiro vamos dar uma olhada para onde estamos indo como uma sociedade global, de acordo com as previsões de analistas e futuristas.

Nos próximos 25 a 50 anos:

  • Mudanças na geopolítica, mudança de centros de poder econômico e político, conflitos continuarão a surgir até que um novo equilíbrio venha a surgir. As instituições globais do século XX não são mais adequadas para o propósito, portanto, uma transformação é esperada.
  • O aumento na demanda por alimentos, recursos e espaço habitável gerará conflitos (até 2050, haverá 10 bilhões de pessoas no planeta).
  • As cidades continuarão a crescer com muito mais megalópoles se espalhando. Novas estruturas sociais surgirão. Métodos de participação pública e tomada de decisão serão implementados usando tecnologia.
  • O agnosticismo e o fundamentalismo religioso podem continuar a aumentar a tensão entre agendas seculares e religiosas.
  • Avanços na tecnologia e na ciência continuarão a mudar o cenário dos negócios, com um forte impacto nas áreas de energia, robótica e inteligência artificial. Estudos biológicos nos níveis genético e de nano-escala possibilitarão avanços tremendos.
  • Gamification como um meio para resolver problemas da vida real se tornará usual. A comunicação holográfica se torna predominante, a hiper-conectividade está em toda parte.
  • A neurociência nos ensinará como aprender melhor, mais rápido e de uma maneira mais agradável, adaptada ao indivíduo.
  • O ser humano terá posto os pés em Marte, estabelecendo a primeira colônia interplanetária.
  • Singularidade poderá ser alcançada (quando um computador desenvolver a inteligência sobre-humana e a capacidade de melhorar a si mesmo).
  • Mudanças demográficas significativas e migração transformarão a composição de países inteiros.
  • A participação e as mudanças hierárquicas e estruturais dentro das organizações empresariais e sem fins lucrativos aumentarão.

Algumas dessas declarações definem situações que são desafios em si, outras afirmam conquistas que serão o resultado de pessoas se unindo. Podemos ver facilmente que a colaboração como uma competência será crítica para muitas, senão todas, dessas realizações; o tempo de um único gênio criando um milagre já passou.

Portanto, facilitação e facilitadores serão necessários para tudo isso? Para responder esta pergunta, também precisamos explorar onde estamos agora…

Educação

Atualmente, o conjunto de habilidades da maioria dos graduados ainda se concentra no desenvolvimento técnico do indivíduo — resultado de décadas de políticas educacionais estabelecidas há mais de 30 anos. Mas estamos vendo mudanças em determinadas áreas — algumas universidades estão usando “trabalho em equipe”, “colaboração”, “inovação” e “criatividade” como palavras-chave diárias. Metodologias Ágeis (Agile) e Design Thinking são tendências em muitas universidades, centros de aprendizado e empresariais ao redor do mundo. O mundo está se movendo na direção certa, mas para isto se espalhar por toda a sociedade, provavelmente levará algumas gerações. Não é uma tarefa fácil treinar milhões de professores em todo o mundo sobre como ensinar para o trabalho em equipe ao invés de como resolver problemas individualmente e memorização.

Indústria

Na indústria, também estamos vendo mudanças. O trabalho em equipe não é um conceito novo. Desde o desenvolvimento dos círculos de qualidade nos anos 80, a escola de qualidade total de Deming começou a transformar a forma como nos relacionamos, promovendo a ideia de mudar as formas hierárquicas das empresas e compartilhando a responsabilidade e o poder com todos os membros de uma equipe.

Ajudar as pessoas a trabalharem juntas tornou-se um importante conjunto de habilidades para os gestores. Nas palavras de Andy Smith: “No futuro, é menos provável que os gerentes conheçam todos os detalhes sobre as áreas específicas de especialização dos membros de sua equipe; em vez disso, o valor agregado dos gerentes será cada vez mais em como ajudar essas pessoas a encontrar soluções e novas abordagens. Na relação um-a-um, há uma considerável sobreposição com o processo de Coaching. Mas com grupos, pequenos ou grandes, a facilitação está se tornando um dos conjuntos de habilidades mais cruciais.”

Liderança facilitadora, alguém? É fácil ver onde os facilitadores podem orientar esses líderes no desenvolvimento desse novo conjunto de habilidades. A cooperação gera um sentimento de pertencer, de modo que também podemos ver a facilitação apoiando as pessoas a sentirem que pertencem a um grupo que cria algo maior do que elas próprias.

Uma tendência identificada em 2011 por Sandy Schuman é o papel crescente dos facilitadores internos. Eles podem ser chamados de Especialistas em RH, Gerentes de Projetos ou especialistas em desenvolvimento organizacional. Seu principal papel é ajudar as pessoas a se unirem, discutirem questões e concordarem com um caminho a seguir. Não seria isso facilitação?

Vários autores estão agora propondo novas formas de interação, como times auto-dirigidos e Holacracia, em que as equipes como um todo tomam decisões de maneira muito estruturada. Será isso auto-facilitação?

Colaboração intersetorial

Como podemos ver na “lista da sociedade futura”, outra área de oportunidade para os facilitadores é a crescente interação entre empresas e a sociedade civil. Onde eles coincidem é conhecido como “valor compartilhado” que definitivamente gera oportunidades para facilitadores que podem construir pontes entre esses setores.

Instituições

Um desafio particular visto por futuristas e analistas é o colapso da confiança nas instituições. Os governos e bancos foram particularmente afetados. Confiança é a nova moeda e os facilitadores baseiam muito do seu trabalho nela. É fundamental que os participantes confiem no processo e no facilitador como um ator imparcial. Os facilitadores estão situados na encruzilhada, onde as pessoas podem se permitir confiar no que está acontecendo no grupo.

A política partidária dará lugar a um novo meio de comunicação entre o governo e seus cidadãos. A conectividade permitirá que os cidadãos experimentem novas e diferentes formas de consultas públicas. Podemos ver, mesmo agora, onde as novos partidos estão usando a facilitação para envolver cidadãos em conversas. Com certeza as conversas vão gerar um novo tipo de representação. Surgirão novos conceitos de interação social, como a democracia líquida (Liquid Democracy). Facilitadores podem apoiar essas conversas.

Esteja preparado para essas oportunidades

Os facilitadores precisarão se preparar para essas mudanças aprendendo uma variedade de processos de engajamento para grandes grupos como o Open Spaces, o World Café, Future Search, Estruturas Libertadoras (Liberating Structures), entre outras. Também podemos aprender a integrar tecnologia em nossos processos para torná-los mais eficientes. Embora esses processos de engajamento para grandes grupos possam envolver muitas das mesmas habilidades de facilitação para pequenos grupos, a abordagem necessária para o planejamento e preparação é muito diferente.

A facilitação tem um papel fundamental no enfrentamento dos desafios e no apoio aos avanços do futuro.

Como eu sempre digo, se um grupo já tem as habilidades para ouvir e se comunicar uns com os outros, para identificar problemas, para se desafiar, para apontar a direção estratégica que eles querem ir e chegar a um consenso sem apoio externo, então eu tenho de procurar outro lugar para trabalhar. Enquanto isso, ao me lembrar da lista de desafios descrita acima, há muito trabalho a ser feito.

Leitura adicional

Este artigo faz parte da publicação mensal da IAF, GLOBAL FLIPCHART #12, em Junho de 2018, e sua tradução autorizada pelo autor.

Artigo publicado originalmente em https://www.aprendix.com.br/facilitacao-uma-habilidade-para-o-proximo-seculo/

Fernando Murray Loureiro

Written by

Liberating Structures Practitioner, Group Process Designer, Experiential Learning Specialist.

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