Sobre “A Boba”

Fernando Pivotto
Mar 18 · 5 min read

Sendo eu um educador de espaços expositivos, meu trabalho inclui atribuições como desaconselhar fotos com flash, lembrar os visitantes que não se pode tocar nas obras e, pelo menos uma vez por dia, responder à pergunta “o que o artista quis dizer com isso?”. Mas voltemos a esta questão depois.

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Se você acompanha minimamente o universo das artes, deve ter esbarrado eventualmente com alguma das seguintes polêmicas: a performance Macaquinhos sendo execrada; Renata Carvalho tendo sua peça, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, interditada de tempos em tempos; Maikon K sendo detido no meio de sua performance DNA de Dan; a perseguição à exposição Queermuseu; a distorção da performance La Bête, no MAM. Estes episódios têm algo em comum: discutem gênero, a violência sofrida pelas pessoas que extrapolam a heteronormatividade, o sexo e o modo como a sociedade o demoniza, e a nudez do corpo (carregada ou não de erotismo), além de acenar aqui e ali à história da arte. Seus detratores classificaram os artistas como tarados, degenerados, loucos, hereges e mamadores das tetas do governo — e merecedores de ser eliminados a todo custo.

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Em 1917, analisando uma exposição de Anita Malfatti, Monteiro Lobato (que talvez você não soubesse que foi crítico de arte, e há uma boa razão para ele não ser lembrado por esse mérito), refletia sobre a paranóia ou mistificação das vanguardas: cubistas e expressionistas (e Anita, obviamente) ou seriam desequilibrados emocional e psicologicamente que produziam obras desequilibradas, ou eram mentirosos que pintavam aberrações e fingiam que aquilo era arte.

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No final dos anos 1930, os nazistas promoviam exibições da arte “boa”, alemã, em oposição a obras de arte “degenerada” (trabalhos cubistas, expressionistas, dadaístas, surreais ou produzidos por judeus), para propagar os ideais de supremacia social ariana.

Obras que não seguiam os padrões nazistas eram a prova da mente doentia daqueles que o regime alegava ser inferiores: tarados, degenerados, loucos, hereges e mamadores das tetas do governo alemão — e merecedores de ser eliminados a todo custo.

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Ok, contexto dado. Vamos conversar sobre o que eu assisti na estreia de A Boba, do Wagner Schwartz?

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Aparentemente simples e consideravelmente despojada, a performance tensiona as relações entre Schwartz, artista perseguido, e o quadro de Malfatti, desonestamente criticado por Lobato.

A Boba, a performance, parece discutir questões pertinentes da história da arte brasileira, como a comunicação entre obra e público e o impacto que crítica e instituições têm sobre a produção de artistas.

Arte só é arte quando alguém diz que é?

Arte é feita para ser bela e apaziguadora ou ela pode ser desconcertante e incômoda?

Uma produção que não se interessa pela beleza e conciliação é sintoma de uma mente degenerada?

E agora, no contemporâneo, é realmente pertinente pensar “o que o artista quis dizer com isso” ou existem reflexões mais relevantes a serem feitas (como, por exemplo, “o que eu faço com isso que foi apresentado?”)?

Obviamente, não são perguntas que se iniciam nesse texto que escrevo, nem na performance apresentada: são perguntas, inclusive, bastante recorrentes. Mas me parece que A Boba, em algum nível, mantém as questões em debate.

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As imagens propostas por Schwartz me levam a leituras distintas e me remetem a possibilidades distintas de se relacionar com as obras (sobretudo as sacralizadas e validadas pelas instituições, como A Boba, de Malfatti, é hoje em dia): ora a agitamos como uma bandeira, um estandarte ou manifesto sobre alguma coisa; ora a protegemos; ora a carregamos; ora seu peso é insuportável; ora ela não para de pé por si só, depende de alguém; ora fodemos a obra e ora somos fodidos por ela; ora somos esmagados por ela.

Se no começo, o quadro caía e o performer lhe dava suporte, no final tudo se inverte: o quadro está de pé e o performer, exausto, está caído. Pra mim, são as imagens melhor delineadas e que suscitam os debates mais interessantes — “a arte é importante, os artistas não; a arte sobrevive, os artistas não” é uma das leituras que eu mais gosto, mas existem outras.

Susan Sontag uma vez disse que “entender a obra”, no sentido de dar a ela um único sentido possível, como se a obra fosse uma charada a ser decifrada (e quando a deciframos, dominamos tudo sobre ela, a domesticamos e estamos prontos a seguir para a próxima, sem precisar mais olhar para trás) era prejudicial e emburrecedor. Então Dionísio nos livre de as leituras que eu fiz do trabalho serem as únicas possíveis, muito pelo contrário. Dionísio me livre de dizer o que o artista quis dizer. Vá você ler esse trabalho, se vire você.

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Claro, o trabalho também tem questões que me incomodam, como o fato de ser tão despojado na forma (embora o conteúdo seja muito denso) que, as vezes, parece uma mostra de processo, um ensaio aberto. Talvez seja uma leitura minha e só minha, então não vamos nos ater a ela.

Também me pergunto o porque de tanta gente não ter gostado da apresentação que eu assisti.

Demérito do artista? Não necessariamente. Sintomático de algo? Talvez.

Tenho a impressão de que o trabalho exige do espectador um conhecimento prévio: quem é Schwartz e pelo quê ele passou nos últimos anos, qual é a história da Boba e sua relevância para as vanguardas brasileiras, quais são os códigos da performance contemporânea e por aí vai.

Quaaaaaaase como se o trabalho não se resolvesse em si mesmo, mas dependesse de informações externas. Não sei, é uma impressão com a qual eu saí…talvez você, leitor, possa dividir comigo as suas.

Ou talvez sinalize umas problemáticas que não são deste trabalho, mas sim da performance, ou da arte contemporânea, ou da comunicação entre obra e público. Coisas que eu tenho visto não só nesse trabalho, mas pelos museus nos quais trabalhei aqui e ali.

Então é isso. Como se dá a relação entre obra e espectador? Sei lá. Ela pode ser tensa à vezes? Obviamente. Artista e público podem discordar? Claro. É melhor quando eles concordam? Não necessariamente. É melhor quando ambos são generosos um com o outro? Talvez sim, talvez não.

Isto aqui é uma crítica que quer validar o que é ou não arte? Não, nem fodendo. Quero falar o que o artista quis dizer? De novo: não. O que ele deveria dizer? Credo. Talvez este texto seja só um jeito de compartilhar: olha, eu fui até aqui, você que assistiu foi até onde? E como você foi parar aí? Agora que você chegou aí, o que você quer fazer com isso?

A Boba.

Teatro Cacilda Becker. Rua Tito, 295, Lapa.

Sessões: dias 18, 19, 22 e 23, às 21h. Dia 24, às 20h.

Concepção e performance: Wagner Schwartz
Colaboração dramatúrgica: Ana Teixeira e Elisabete Finger
Direção técnica e iluminação: Juliana Vieira
Produção: Gabi Gonçalves / Corpo Rastreado
Coprodução: Corpo Rastreado e MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo
Apoio: Casa Líquida
Apoio cultural: Instituto Anita Malfatti
Objeto: Réplica do quadro A Boba, de Anita Malfatti / Imagem cedida pela Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo
Agradecimento: Sylvia Malfatti, Paula Malfatti, Júlia Feldens, Lucas Länder, Iris de Souza, Karlla Girotto, Renato Hofer, MASP, MAC USP

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