Sobre “Cérebro_Coração”

Fernando Pivotto
Sep 8, 2018 · 4 min read

Domingo passado eu tive uma crise de choro foda. Demorada, dessas de não conseguir articular fala, de doer a barriga de tanto soluçar, da cabeça ficar latejando o resto do dia.

Passado o choro, fiquei o resto do dia largado na cama, imóvel, encarando o teto do quarto por sei lá, umas duas horas, vendo a realidade objetiva (o teto, a cama, os sons lá fora, o sol que se punha) se borrar com a realidade subjetiva (a desesperança, a tristeza, a certeza de que nunca mais na vida seria capaz de parar de chorar), como uma influenciava na percepção da outra, como o filtro de uma significava um modo de ver.

No sábado passado eu vi Cérebro_Coração , aula-performance de Mariana Lima (pela qual ela está indicada ao Shell carioca como dramaturga e atriz) e dirigida por Henrique Diaz e Renato Linhares, que versa justamente sobre a oposição/sobreposição/composição dos hemisférios direito e esquerdo do cérebro e das aproximações e distanciamentos entre cérebro e coração. Obviamente, não foi o monólogo que eu vi na véspera que me fez chorar, mas ele surgia na minha mente de tempos em tempos, no turbilhão de coisas que passava pela minha cabeça.

Me peguei pensando sobre o uso de medicamentos estabilizadores de humor ou, numa comparação muito pueril, nos procedimentos dos quais lançamos mão quando queremos alterar nosso estado de consciência, seja matar uma garrafa de vinho na fossa ou ouvir música agitada na academia. Me peguei pensando em como nossa apreensão da realidade é condicionada a diversos fatores, desde a quantidade de cones e bastonetes nos meus olhos influenciando na qualidade das cores que eu vejo às papilas gustativas na minha língua que vão me dizer o gosto das coisas (ou melhor, o gosto que eu compreendo que as coisas têm) e à serotonina e a dopamina que influenciam meu ânimo e humor, à oxitocina que influencia os laços que eu forjo com alguém, os reguladores naturais de apetite, sono, os neurotransmissores, as sinapses, a compreensão de que meu cérebro é uma máquina que interpreta e administra outras máquinas e quando ela(s) pifa(m), o (meu) mundo também pifa junto — ou, ao menos, é substancialmente alterado.

Usando noções de neurociência e citando os trabalhos de Proust e Leonílson, Mariana Lima articula questões como a indústria farmacêutica, a história dos tratamentos psiquiátricos (pelo menos em alguma medida), a memória e a capacidade (necessidade?) de transformar a tristeza em arte. É interessante ver como ela, junto com os diretores e colaboradores, borra as linhas entre teatro, performance e aula, criando uma experiência às vezes bastante distanciadora e outras vezes muito intimista, ora didática e ora subjetiva, quase surreal .

Ao longo da aula, os limites vão se borrando, as imagens projetadas podem ser de Proust mas também podem não ser; um elemento que aparece numa foto depois aparece em outra e reaparece num descanso de copo; a sobreposição de transparências forma uma nova imagem com novo significado. É quase como assistir às sinapses de alguém disparando, ver o fluxo de consciência de alguém conectando passado e presente, os pensamentos sendo elaborados instantaneamente e auxiliando na criação de novos pensamentos.

A cenografia de Dina Salem Levy auxilia imensamente nesse quesito, com as paredes se mexendo, se aproximando e se distanciando, podendo ser lidas como as de uma sala de aula, ou de um corredor de hospital, ou de uma cela. Ou ainda uma outra coisa, depois da cena do ventilador e do martelo. A luz de Beto Bruel (também indicado ao Shell, assim como a cenógrafa) também ajuda a delimitar espaços, conduzir o olhar ou criar uma atmosfera, especialmente no uso do vermelho.

Como consta no release e aparece em algumas entrevistas, a idealizadora deixa claro que tem menos interesse em compartilhar respostas do que em compartilhar perguntas: deste modo, Cérebro_Coração deixa diversas lacunas propositalmente, talvez confiando que os cérebros assistindo à aula-performance consigam não dar sentido à coisa, mas usá-la para dar sentido a novas coisas, continuar a linha de raciocínio que foi desenrolada até o final da encenação.

De certo modo, isso se dá desde o estágio de ensaios do espetáculo, quando foi apresentado em algumas escolas da Rede Estadual do Rio de Janeiro, sem maquiagem cênica, só as ideias postas em contato com os estudantes e professores e a professora-performer mediando e tensionando.

É uma proposta bacana, que acredita na (e estimula a) autonomia do público, e que chega à potência em que chega graças à poderosa presença de Mariana, interessantíssima em cena, com uma atuação técnica e precisa mas que também flerta com o (ou um aparente) descontrole. Racionalidade e emotividade.

Talvez haja muito mais coisa além disso. E talvez não seja nada do que eu disse. Mas foi isso que esse cérebro aqui, relativamente regulado, relativamente funcional, conseguiu apreender.

Cérebro_Coração. Foto de Maurício Fidalgo

Cérebro_Coração

Até 23 de setembro.Sextas e sábados, às 21h30. Domingos e feriados, às 18h30
Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1000.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira); 15,00 (meia) e R$ 9,00 (credencial plena do Sesc).

Atuação e dramaturgia: Mariana Lima
Direção e colaboração dramatúrgica: Renato Linhares e Enrique Diaz
Cenografia: Dina Salem Levy
Iluminação: Beto Bruel
Projeções: Mídias Organizadas | Paola Barreto, Lucas Canavarro, João Iglesias e Jonathan Nunes
Trilha sonora: Lucas Marcier
Assistência de direção: Luisa Espindula
Figurinos: Marina Franco
Preparação Corporal: Laura Samy
Consultoria em arte contemporânea: Luisa Duarte
Operação de som: Joana Guimarães
Operação de luz: Luana Della Crist
Operação de projeção: Lina Kaplan
Camareira: Conceição Telles
Captação de imagens em estúdio: Théo Tajes
Construção de cenografia: Camuflagem
Cenotécnico responsável: Wilker Barros
Visagismo: Brenno Santos
Arte gráfica: Cubículo | Fábio Arruda e Rodrigo Bleque
Assessoria de imprensa: Factoria Comunicação
Realização: Sesc SP

Equipe Quintal Produções
Produção e administração: Quintal Produções
Direção geral: Verônica Prates
Coordenação artística: Valencia Losada
Produção executiva: Thiago Miyamoto
Assistência de produção: Eduardo Alves
Direção de palco: Iuri Wander

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