Sobre “Vincent River”

Cunhado pelo crítico inglês Aleks Sierz, o termo In-Yer-Face Theatre refere-se a um tipo de teatro em voga na Inglaterra da década de 1990 que apresentava temas controversos de forma crua, utilizando o choque, a violência e o horror não como forma de gerar emoções baratas sensacionalistas (como acusavam alguns detratores na época) mas de denunciar um mal-estar social e político comuns à população do período.

Sierz explica em seu site que o In-Yer-Face Theatre é um tipo de produção que “pega a platéia pelo pescoço e a sacode até que a mensagem seja entendida” e que “choca a platéia pelo extremismo de sua linguagem e imagens; a desassossega devido à sua franqueza emocional e a perturba graças ao seu questionamento agudo das normas morais. Ele não apenas capta o zeitgeist, mas também o critica. A maior parte das peças In-Yer-Face não está interessada em mostrar eventos de uma maneira distanciada e em permitir que a platéia especule sobre eles; ao contrário, […] desejam que a platéia sinta as emoções extremas que são exibidas no palco”.

Dos nomes que os teóricos costumam a associar ao In-Yer-Face, podem ser citados Sarah Kane (sobretudo sua primeira obra, Blasted), Patrick Marber e Phillip Ridley, cuja Vincent River segue temporada no Sesc Vila Mariana até 29 de setembro. Na cena proposta por Ridley, Anita recebe em sua casa o jovem Davey, que a rondou pelos últimos dias e que, ela suspeita, está ligado ao assassinato de seu filho, Vincent, cujo corpo foi encontrado num lugar de pegação gay.

Muito mais do que um espetáculo que fale sobre luto e homofobia (embora esses sejam o ponto de partida do texto e ao redor do qual ele vai sempre gravitar), Vincent River consegue desdobrar esses temas e aliá-los a questões econômicas e sociais pertinentes à Inglaterra do final do século XX e início do XXI. Fala, em alguma medida, da ausência de futuro dos personagens e das classes trabalhadoras em geral, seja por questões econômicas, sociais, políticas, de gênero, de sexualidade ou por demais desafios às “normas morais” que Siersz cita. Anita, a mãe, tem seu futuro mutilado com o assassinato de seu filho (metáfora até bastante direta), mas não necessariamente o teve muito seguro antes: já o pôs em risco no passado, ao ter um caso com um colega de trabalho casado e parente do chefe — e assim, por desafiar a imobilidade social, a santidade do matrimônio e o papel passivo esperado das mulheres, Anita é castigada com o desemprego, a alienação da família, o fardo de ser mãe solteira.

Vincent, um homem que se relaciona afetivamente com outros homens, também é punido com a morte por desafiar a norma, mas também não tinha um futuro brilhante pela frente: vive sua sexualidade às escondidas, ainda mora com a mãe mesmo estando na casa dos 30, tem um subemprego. Na mesma medida, Davey, o jovem que visita Anita, tem perspectivas de futuro muito pouco empolgantes: tem 17 anos e já vai se comprometer num casamento com altíssimas chances de divórcio e dedica outras áreas da vida à morte iminente da mãe, de modo que as expectativas familiares e sociais já lhe empurram para uma vida adulta medíocre e infeliz.

Embora terrível (e a dramaturgia não poupa os detalhes gráficos que sublinham os aspectos terríveis do evento), o assassinato de Vincent não é a primeira aproximação dos personagens à violência: suas vidas são violentadas continuamente nas dificuldades financeiras, na obrigação de atender as expectativas de terceiros, no choque constante com os mais poderosos (física, econômica, intelectual ou politicamente).

Assim, Ridley versa sobre o amor (tanto o filial e quanto o romântico) que é maculado, pervertido e subjugado pela ignorância e intolerância que acham lícito resolver as diferenças a partir da violência, mas também propõe uma reflexão sobre como é viver numa sociedade que não apresenta perspectivas de melhoria de vida, que não oferece serviços essenciais de qualidade (especificamente no caso da peça: a imprensa e a polícia que tratam o assassinato com sensacionalismo ou desdém), que não incentiva uma noção de pertencimento e de vida saudável em comunidade e cujo produto final só pode ser ignorância, intolerância e violência.

Neste sentido, Sandra Corveloni compõe uma Anita cansada e amargurada, desgastada por uma vida contínua de luta e agora tendo que somar uma das piores dores da existência humana a seu já extenso rol de desilusões. A atriz consegue muito bem dar o peso apropriado à sua personagem mas também consegue soprar aqui e ali alguns momentos de leveza e humor (cito como exemplo o momento da bebedeira e da reflexologia) e de doçura e melancolia (a cena do álbum de fotos e das asas de anjo). É um trabalho muito competente acerca de uma personagem tão complexa e desafiadora, e uma presença fundamental na encenação.

Estando alinhado ao In-Yer-Face Theatre, Vincent River é uma experiência crua e seca cuja fruição deixa um gosto amargo na boca. O olhar perspicaz de Ridley consegue proporcionar (ora pela violência gráfica, ora pelo humor ferino) um panorama sobre a sociedade inglesa, no qual o espectador atento encontrará ecos com a sociedade brasileira atual.

Vincent River. Foto de Eliana Souza

Texto Philip Ridley |Tradução e direção geral Darson Ribeiro | Elenco: Sandra Corveloni (Anita, especialmente convidada) e Thalles Cabral (Davey).

Fotografia Eliana Souza | Designer Gráfico Iago Sartini | Hair Style Walter Leal — Studio W | VisagismoClaudio Germano | Cenografia, Trilha, Figurino e Design de Luz Darson Ribeiro | Edição de somLalá Moreira | Assistente de direção Roberto Novelli| Estagiário de direção e operação de som e luz João Marcos Costa | Assessoria de imprensa Eliane Verbena | Administração Geondes Antônio | Armazenamento e logística Personnalite Transportes & Mudanças | Idealização Dr Produções | Realização Sesc-SP

Serviço

Vincent River, de Philip Ridley

Estreia: 17 de agosto. Sexta, às 20h30

Temporada: 17/8 a 29/9 — Sextas, às 20h30, e sábados, às 18h

Duração: 90 minutos. Gênero: Drama. Classificação: 12 anos.

Ingressos: R$ 20,00 (inteira). R$ 10,00 (meia). R$ 6,00 (credencial plena do Sesc)

Bilheteria: Terça a sexta (9h — 21h30); sábado (10h — 21h); domingo e feriado (10h — 18h30) — ingressos nas unidades do Sesc e portal.

Local: Auditório (128 lugares).

Sesc Vila Mariana

Rua Pelotas, 141, São Paulo — SP

Telefone: 5080–3000

Estacionamento: R$ 5,50 + R$ 2,00 a hora adicional (credencial plena) e R$ 12,00 + R$ 3,00 a hora adicional (outros). 130 vagas.

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