A extinção do Táxi está chegando?

Cada vez que uma mídia nova chega, outra é julgada pelo fator “Será que é o fim de…?”. Foi assim com o surgimento do rádio, que diria extinguir o jornal imprenso. Da mesma forma a fotografia dizia matar a pintura. Ou mesmo a própria TV, que foi eleita como a assassina do rádio. Estamos numa era de evolução tecnológica tão absurda a ponto de elegermos a extinção de uma forma de transporte da classe média alta, o táxi, como próximo debate. Eis que chega o Uber, famoso nas manchetes de jornal por competir com os táxis com preços mais atrativos. Se você não conhece, precisa trabalhar mais nas suas visitas ao G1, Folha, UOL ou Sensacionalista.

A briga entre taxistas e Uber já passou pelos vários fóruns da lei, pelos memes da zoeira, pelos jornais, pela boca do povo e, agora, pela delegacia. Casos de agressão de taxistas a motoristas e passageiros de Uber são públicos e notórios.

Chega de palhaçada nessa cidade. Agora é cacete.

A declaração do sindicalista Simtetaxis acima mostra que eles, ou as autoridades, mal entendem o conceito “das nuvens” - se referindo a nuvem, ou cloud, como se fosse uma pessoa ou empresa - e isso assusta mais do que tudo essa classe. A amostra dos consumidores de classe média de um serviço estarem tão intimamente interligados a informação e a empresas preparadas a manipula-las, que podem facilmente dispensar um serviço regulamentado pelo governo, é assustador para o trabalhador da classe C e D. Ao mesmo tempo em que temos pessoas pirateando curadoria de conteúdo via whatsapp, temos aqueles que lutam pelos modelos antigos. Uma hora isso iria gerar conflito físico, claro.

Em teoria conspiratória, um amigo me disse sobre como as corporações estão dominando os transportes, já que dominam boa parte das telecomunicações. O Uber é amostra mais real e agressiva disso, pela sua perspectiva. Só que essa realidade não é conspiratória, está embutida na validação cotidiana do sistema o qual aceitamos e louvamos para viver. Deixar o transporte nas mãos do governo não tem sido das soluções mais amigáveis também. Significa que temos que privatizar? Longe disso. Mas o próprio governo se vê atado sobre como agir em relação a esta empresa sem abrir precedente para acabar com o livre comércio. Como lutar contra o Capital se está sentado sobre o mesmo e fundamentado em cima dessa lógica? Uber é a pirataria institucionalizada, que favorece principalmente ao consumidor final e a própria empresa. E isso é a base do modelo no qual vivemos, a saúde da empresa em primeiro lugar e do consumidor no segundo, o trabalhador em terceiro. Se isso é certo ou errado não vou fazer o juízo de valor aqui, deixo a ponderação para o estimado leitor.

Taxistas “vão desaparecer pela concorrência predatória”

Fernando Haddad

Aproveito para reavivar a memória: Alguém se lembra de quando lançaram o Easy Taxi, 99 Taxis, etc? Li muitos casos de motoristas que, sem saber lidar com a forma de distribuição de passageiros, agrediram alguns que não conseguiram pagar em dinheiro e só tinham cartão ou o cartão não passava. Vi mais de um depoimento disso. Na época não me entrava na cabeça porque alguém agrediria outra só porque ele mesmo não podia receber uma determinada forma de pagamento. O próprio aplicativo mostrava qual seria a forma de pagamento do passageiro. Nunca me fez sentido. Só por não saber usar realmente a ferramenta, pessoas foram parar no hospital. Medo toma conta daqueles que não conseguem se adaptar para evoluir. Muito chão rodou e hoje os aplicativos de táxi parecem até obsoletos de tão corriqueiros.

Carro, motorista e passageiros a caminho da festa da Vogue, sofrem agressão de grupo de taxistas “fiscalizando” entrada de região da festa de carnaval da revista.

Mais uma vez, sem saber lidar com a novidade: agressão. Só que dessa vez a agressão é institucionalizada, não casos isolados. São turbas de taxistas enfurecidos procurando e atacando a concorrência corporativa. Concorrência desleal, de fato, mas dentro das leis do capitalismo, que são as mesmas que decidiram seguir os próprios taxistas. A declaração do prefeito de São Paulo, em 28 de Janeiro, não é de toda equivocada. Parece o grito enfurecido de uma espécie a beira da extinção, o Taxis Sapiens. Não justificando, mas eles mesmos são vítimas da violência que estão só reproduzindo. Eles tiveram que sofrer para participar da máfia na qual hoje estão inseridos. Tiveram que “pagar ponto”, brigar por espaço, passar por uma burocracia sem fim — que nada mais é do que a violência do governo — trabalhar em horários insalubres, para conquistar o direito de serem taxistas. Hoje estão reproduzindo essa violência e agora será o consumidor que vai dar a palavra final na extinção ou não do Taxis Sapiens, em favorecimento do Uberus Maximus. Boa sorte na briga, macacada.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.