A FLORISTA

Mudaram as estações, nada mudou. Fazia um ano que Benício parara na floricultura de Tábata pela primeira vez. Lembrou estar na primavera novamente quando escutou, na rádio, a frase assertiva de Cássia lhe dar um sopapo enquanto dirigia, mais uma vez, rumo à loja de flores que fazia seu coração disparar.

As tulipas que Tábata recebeu, ironicamente, as primeiras e últimas não compradas em sua loja. Foto: Monalyn Gracia

Quando Benício esteve naquela floricultura pela primeira vez, foi subitamente arrebatado pela beleza negra de olhos chilenos de Tábata. Desde então, todas as semanas ia à loja de flores após o expediente e encomendava algo só para poder vê-la. E ele, nada entendido sobre flores, já sabia identificar as espécime: gérberas, crisântemos, lírios, hortênsias, kananxuês, tulipas, begônias… Algumas vezes comprava apenas um buquê, em outras, levava um arranjo consigo.

Vieram verão, outono e inverno e, embora a conversa entre eles rendesse afinidades as quais transpassavam as flores, risadas e confidências, Benício — de uma timidez de dar pena — jamais teve coragem de pedir o telefone da moça. Certa feita ele tocou a mão de Tábata no momento da entrega de um lírio e, inevitavelmente, se olharam. Saiu de lá correndo, corado e angustiado. Pus tudo a perder, pus tudo a perder!, relembrava o momento naquela madrugada sem sono. O rapaz sentia pontadas no peito e o coração batia rápido ao vê-la sorrir com um cortês boa noite. Só quando começavam um ameno diálogo, sua tensão e ansiedade iam baixando.

A florista, por sua vez, muito delicada, gentil e instigante, viu em Benício um divertido, educado e respeitoso moço. Apaixonou-se. Mas como dizê-lo? Oras, ele sempre saía de lá com flores para entregar a alguém. E se for pra mulher dele?, pensava. Vai ver é pra mãe que tá muito doente!, complementava uma amiga. Buquê de rosas vermelhas à mãezinha doente? Meu Deus, haja incesto!, treplicava à colega com leve sorriso irônico. Por isso, preferia não interrogá-lo. Tinha receio de estragar sua história. Só de imaginar o rapaz, aparentemente sincero, tendo um amor e ainda querendo outro amor, seu coração estremecia e o olho brilhava uma lágrima contida de tristeza.

Benício estacionou o carro com um semblante estranho. Acontecesse o que acontecesse em seu dia, a melhor hora dele era a visita à floricultura. Não somente pela avidez à vida de seu affaire, mas os cheiros, as cores, o ambiente, tudo ali mudava seu astral. Neste dia, seu cômodo querer parece ter chegado ao limite. Refazia a primeira visita à floricultura em pensamento, quando encomendou um arranjo à tia. Desfeito o transe, em vez de se dirigir à loja de flores de Tábata, deu a partida no carro e foi a uma floricultura do outro lado da avenida.

Quase uma hora depois, a moça recebia tulipas em sua loja. No bilhete estava escrito caligráfica e cuidadosamente, recado com endereço no verso.

Flor
Minha vida está despetalada sem seu amor

Cansei de viver do meu jardim
Venha comigo a vida regar
Aguardo você às 20h30, de portas abertas.
Com carinho, Benício.

Tábata lia e relia o bilhete sem crer. Um milhão de perguntas sem respostas. Vou ou não vou? Vou ou não vou? Não o conheço! Quer dizer, conheço! Mas só ignoramos o que conhecemos… Se ele for perigoso? Um lunático? Um tarado? E a mulher dele? Indecisa, ainda não sabia se iria. Do lado de lá, eram quase 21h e nada dela. Benício se corroía, se doía, não se perdoava por ter rompido aquela barreira. Orou, bebeu, chegou a chorar. Quando ela chegou, eram quase 22h. A casa tinha fragrância floral e um silêncio sepulcral. Chamou por Benício uma vez e novamente. Sem resposta. Resolveu seguir a fragrância. Atravessou sala, copa, chegou a um quintal, repleto de flores. Passeou entre elas. Cada planta no chão tinha nota com data presa no vaso e ainda trazia selos da floricultura de Tábata.

“02 de maio de 2013. Tábata e eu falamos de filhos. Ela também quer um casal.”
“27 de setembro de 2012. O nome dela é Tábata!”
“17 de julho. Tocamos as mãos e nos olhamos ternamente. Cumplicidade.”

A florista sorria e chorava vendo o amor transbordar no esmero das datas, das confissões às flores, no gesto singelo em segredo. As flores: desculpas pra amar!, balbuciou. Sentia uma felicidade de paixão sem tamanho, não cabia em si. No fundo do quintal, onde o chão era tomado por terra fofa e vermelha, havia várias caixas de papelão abertas e dispostas lado a lado em cima de uma mesa enorme de madeira. Dentro delas, flores secas compradas na floricultura de sua amada, cada uma delicadamente com grampo e verso carinhoso em tira de papel. Deu a volta na mesa e encontrou Benício caído, com a cara enterrada no chão. A ansiedade do encontro com sua amada foi cruel com sua arritmia, teve um AVC. Não era só paixão o que sentia por Tábata quando seu coração acelerava.

O amor florescido na primavera passada, desbotou e morreu nesta mesma estação.

*Citações às músicas Do Jeito que For, do Jorge Vercilo e Por Enquanto, de Renato Russo.