
BOLETIM DE OCORRÊNCIA
Entrou na sala logo atrás do oficial, sentou–se em uma cadeira que foi apontada pelo delegado calvo, que estava atrás da grande mesa de madeira com um cigarro no canto da boca.
– O nome do senhor?
Ele pigarreou, limpando a garganta.
– Arh, arhan! Fábio Rosa Souto.
Um oficial começou a redigir o depoimento em um velho computador, em uma mesa contígua.
– Profissão?
– Escritor.
O delegado olhou por cima dos óculos e deixou a cinza do cigarro cair em si, sem se importar.
– O que anda acontecendo, senhor Fábio escritor? Conte–me o que o trouxe aqui.
– Eu queria fazer uma denúncia por perseguição, é assim que se chama? Perseguição? Eu não entendo muito de direito então…
– Quem está perseguindo o senhor? — interrompeu o delegado abruptamente.
– O nome dele é Agenor.
O delegado deu uma longa baforada no cigarro, movimentou uma pilha desarrumada de papeis de cima da mesa procurando por algo. Achou um maço barato de cigarros, acendeu um na brasa do primeiro que foi jogado para trás da mesa, no chão.
– E por que o senhor Agenor está perseguindo o senhor?
Fábio suspirou e se ajeitou na dura cadeira.
– Então, ele acredita que estou tendo um caso com a esposa dele.
– E o senhor está?
Fábio pigarreou novamente.
– Arh, arhan! Isso é, bom… digo… é mesmo relevante? Adultério não é crime, é?
Novamente o delegado olhou por cima dos óculos para Fábio, deu mais uma longa baforada, olhou para o agente que redigia o depoimento.
– Então o senhor, como dizem os populares, deu uma furada na esposa do senhor Agenor, que obviamente ao descobrir o fato… Aliás, como ele descobriu?
– Não sei, não ficou claro. Talvez uma mensagem de celular, uma carta ou…
– Ou o quê, senhor Fábio escritor?
– Ou uma cueca minha, no quarto dele…
O delegado deu um tapa na mesa e levou a outra mão até a testa em um movimento reprovatório.
– O senhor largou uma cueca sua na casa do homem depois de deitar–se com a esposa dele? É isso que eu entendi?
– Foi, mas foi completamente sem querer…
– Ok, e o que o senhor Agenor anda fazendo que incomodou o senhor?
– Ele tem ligado no meu trabalho, na minha casa, no meu celular! Fazendo ameaças, doutor! Ameaças! E uma das vezes que eu liguei para Carla, ele atendeu e disse que iria até o meu serviço pra ter uma conversinha comigo se eu…
– Se você o quê, senhor Fábio? Se o senhor comesse a mulher dele de novo? Ou se o senhor largasse outra cueca em cima dos lençóis do homem?
Fábio olhou para o delegado com olhos arregalados e respondeu com incredulidade à cena que visualizara.
– A, a, acho que, que as duas co, coisas… Ou ele pro, va, vavel, mente nã, não se resig, resignou em ser tra, traído.
Uma cinza enorme caiu da ponta do cigarro do delegado. E o agente, que registrava o depoimento, virou a cadeira, mandou imprimir o depoimento para revisão e também acendeu um cigarro, prevendo que nada mais precisaria acrescentar.
– Olha só senhor Fábio, o senhor pode registrar uma ocorrência de Perturbação de Tranquilidade contra o senhor Agenor, uma vez que não houve ameaça à sua integridade física. Eu vou registrar todo o seu depoimento, vamos imprimi–lo na forma de um documento e o senhor assina esse documento. Depois vamos procurar pelo senhor Agenor para que ele possa dar a versão dele da história, com detalhes, inclusive onde ele encontrou a tal cueca. E depois ele assina também. Ele vai assinar um documento oficial, do Departamento de Polícia, que confirma que ele é um belíssimo corno graças ao senhor.
O delegado concluiu com um sorriso irônico. Fábio ficou em silêncio por alguns segundos, com os olhos ainda mais arregalados.
– Da maneira como o senhor colocou, não parece uma boa ideia, né?
– Não parece é? Eu não disse coisa alguma. Aqui estou a serviço da população e de cidadãos que procuram a lei, como o senhor.
– Bem, acho que não precisamos continuar com isso, não é mesmo? Vai que as coisas fiquem piores se os senhores ligarem pra ele, né… Mas obrigado pelo seu tempo mesmo assim. — Fábio foi se levantando lentamente.
– Como o senhor quiser. E está tarde, senhor Fábio. Volte para casa com cuidado, viu…
O delegado desfez o meio-sorriso sarcástico e meneando a cabeça negativamente procurava por outro maço de cigarros em cima da mesa. Fábio saiu lentamente, olhou para os dois lados antes de deixar a delegacia e foi correndo em direção ao carro estacionado. Saiu cantando pneus e quase bateu no portão enquanto olhava pelo retrovisor, com a sensação de estar sendo observado.
– É cada uma que me aparece! Você viu isso? — O delegado pediu o isqueiro pra o oficial que redigira o documento.
E continuou:
– Depois eu lavraria esse documento, chamaria as partes e o que aconteceria? Um corno homicida dentro da minha jurisdição!
– Então posso deletar o documento, delegado?
– Deve, né, Haroldo, deve! E Zeca! Ô Zeca! Acorda, infeliz! Todo dia chego nesse Departamento e tem uma pilha de processos na impressora! Comece agora a cumprir as demandas de hoje, ligar pros interessados!
Zeca, com a cara amassada do cochilo que tirava em cima da mesa, foi até a impressora cumprir seu trabalho. E só encontrou um processo para ligar para as partes, de um tal Agenor.
*Escrito a 4 mãos com @ProcurePorCadu.