Todo casal sem vergonha é um caso de polícia em potencial. Foto: Infohoje

CASAL SEM VERGONHA

Tudo que é junto e misturado, embola. E o que embola não vira laço!, filosofou a sobrinha adolescente de Orlando ao lidar com uma briga dele e da esposa Dalva dentro de casa. Eles eram parecidos com esses casais de novela. Brigavam várias vezes na semana, uma briga maior do que a outra e sempre por qualquer ciúme, queixume ou coisa banal. Por sorte ou providência divina, não tinham filhos. Crianças que crescem em ambientes assim estão mais propensas a serem desajustadas quando adultas!, dizia o psicólogo em entrevista na tevê. O aparelho era um dos principais espectadores dos disparates do casal, assistindo pratos e artigos de decoração voarem de um lado para se espatifar no outro da sala.

O pior das contendas entre Dalva e Orlando não eram os quiprocós em que perdiam tempo de amor e de vida, mas envolver familiares e vizinhos. Eles precisam se separar antes que o pior aconteça!, segredava uma parente de Dalva a outra. Eu vou te matar!, dona Teodora escutava, novamente, o berro vindo do andar de cima. E lá se vai mais uma caneca de café contra a parede. De repente, um breve silêncio. Nessa noite ninguém dorme!, disse o síndico Gomes à esposa, antes de atender uma nova ligação de condômino, prevendo o que viria agora com aquele silêncio conhecido: a sessão privê para o prédio e a rua.

Era normal que eles, após os barracos homéricos, fizessem amor em alvoroço até de manhã. Um casal sem vergonha.

Aos amigos e familiares, Orlando justificava o amor e desamor frequentes, em meio às querelas com Dalva, atribuindo, um defeito dele à sua mulher, alegando sê-la neurótica de ciúmes. Em verdade, ele sim, se descabelava com qualquer roupa mais sexy vestida pela loira esculpida pelo Diabo, como dissera a ela, ainda na cama, após transarem pela primeira vez com sofreguidão. Já ela, usava o pretexto de seu marido ter sido um galanteador bon vivant antes de se conhecerem para camuflar suas crises de ansiedade e pseudoausências de carinho.

Mas o que era complexo no relacionamento entre eles piorou quando Orlando, certa feita após gritar com Dalva como nunca o fizera, lhe esbofeteou a cara.

No segundo seguinte, se arrependeu pedindo desculpas, se dando conta que talvez cruzara uma linha sem volta na relação. Bate de novo!, ela sorriu com uma feição lúcida, que lhe pareceu sensual. Então, se atracaram em beijo sem fim.

Ela o jogou na cama, foi ao banheiro da suíte e saiu minutos depois com uma lingerie impecável: espartilho e cinta-liga pretas, além de algo parecido com um chicote. Orlando embasbacou, olhos bem abertos, sem piscar e só abria a boca para balbuciar Te amo, Dalva! Te amo!, enquanto a loira caminhava libidinosamente em sua direção. Dalva lhe puxou a cueca, salivou o pênis de Orlando e o cavalgou. Quando ele, em êxtase, avisara que chegaria ao ápice, Dalva tateou o lençol ao seu lado e pegou o apetrecho que se parecia com chicote, mas se revelava agora um cinto fino. Com destreza, laçou o pescoço do marido, apertando a fivela ao máximo enquanto ele se engasgava sem conseguir expressar palavra. Não dava para saber se os grunhidos de Orlando eram do orgasmo ou da falta de ar pela asfixia, mas Dalva olhou para ele até o brilho de vida se esvair de suas pupilas. Belos laços não nascem de nós cegos!, ela pensou enquanto higienizava a vagina no bidê. Orlando nunca mais esbofetearia outra mulher.

*Referência no título e no texto ao samba Casal Sem Vergonha, do Zeca pagodinho.