App Lulu: explosivo para uma ciumenta em reabilitação.

TRINITROTOLUENO

Quase matei um ex-namorado, mas agora estou curada. Sim, curada, porque o ciúme é uma doença. O ciúme é a arma do assassino passional. E não sou ciumenta. Quer dizer, não sou mais. Já fui.

Por conhecimento de causa, tudo que um ciumento precisa é que seu brinquedo ou sua paixão, como preferir, se deixe manipular, atenda seus mimos e desejos de ter tudo e todos. O ciumento, antes de qualquer coisa, é astuto, perspicaz: manipula sem dizer palavra, é doutor no uso da tensão e mestre em camuflar chantagens emocionais.

A história mostra que ciumentos, na grande maioria das vezes, só quiseram provar a si mesmos que estavam certos sobre a má conduta de seus iguais e, assim, continuarem detendo grande poder sobre eles. Também, na grande maioria das vezes, a desconfiança de um ciumento é falha. De tanto fantasiar a infidelidade em tudo, ele perde seu parâmetro e, logo, seu respeito perante os demais interlocutores. Agora, nem sempre os ciumentos estão errados. E juntar a intuição de um deles com a traição consumada é pior do que trinitrotolueno.

Quando namorava Olívio, bastava que ele fosse se banhar que eu dava uma geral nos bolsos de camisa, paletós e calças atrás de bilhetinhos com juras de amor e telefones. Ao menor descuido dele, fuçava as ligações e mensagens do telefone. Cheirava camisas pra saber se não tinha perfume de uma qualquer e olhava com atenção pra detectar qualquer cor de batom ou blush nos colarinhos; também virava o cesto de roupa suja de cabeça pra baixo e contava a quantidade de roupas usadas por ele com os dias da semana, pra ver se a conta batia. Eu estava surtada.

Um dia ele chegou em casa e eu estava atrás da porta do seu quarto, segurando um .38. Perguntei com que puta ele estava até aquela hora, ele me pediu calma, disse pra eu baixar a arma.

Berrei que me contaram que no dia tal o viram em um shopping, no horário de expediente, com uma loira que aparentava ser bem mais velha, justamente no dia que eu precisei fazer uma viagem com meus aluninhos da escola. Ele continuava me pedindo calma, falava pra eu parar de apontar a arma pra ele, eu ordenava que ele se afastasse, ele se aproximava vagarosamente, sereno, dizia que eu estava fazendo uma confusão, que a tal loira era minha mãe e que precisou da ajuda dela pra me comprar um vestido lindo que me deu. Mas eu ainda estava muito impressionada com aquela história do vídeo do Whatsapp, um que o garoto transara com mãe e filha sem que elas soubessem. Pronto, foi só o que lembrei no momento. Olívio, num rápido reflexo, levantou meu braço, e eu no susto, apertei o gatilho. Houve um estrondo a queima-roupa e ele caiu no chão.

Descobriram mais tarde que Olívio desmaiara devido à situação de tensão e dor, mas que a bala se alojara em seu ombro, sem risco de vida. Foi quando percebi duas coisas: um, ele realmente me amava, pois sequer prestou ocorrência na polícia, só disse que não queria me ver nunca mais e que eu não tentasse falar com ele na rua em algum encontro casual, pois eu seria desprezada. A segunda foi que sempre achei supernormal que alguns amores nos despertassem essas coisas estranhas mesmo, o possessivismo, a obsessão… Eu, por exemplo, pensava que só estava neurótica daquele jeito porque nunca tinha amado antes, ou porque me achava inferior ao bofe, ou ainda porque o boy magia era um grandessíssimo filho da puta. Mas, em verdade, era eu inventando sempre uma desculpa nova. Então, enxerguei o óbvio: fui assim com todos os caras da minha vida. Eu, realmente, precisava de ajuda.

Joguei no Google e descobri que o tipo de ciúmes que eu tinha era patológico. Significava que eu tinha uma “dependência emocional com o outro.” Ainda segundo site que pesquisei, “o ciumento se torna paranoico e sofre com suas interpretações da realidade que não coincidem com a própria realidade. Sente ansiedade, raiva ou medo o tempo todo, com a possibilidade que seu ente querido deposite seu afeto em uma outra pessoa…” Era como se eu lesse minha alma, coisas que jamais procurei saber por não admitir nem a mim mesma. Por isso, comecei uma terapia com uma psiquê, usei tudo que estava ao meu alcance pra autoperdoar, dissipar meu remorso, evoluir pessoalmente e espiritualmente. Li até O Segredo, mas abafa isso porque eu detesto livros de autoajuda.

Bom, mas como eu dizia, agora estou curada. E a prova disso é que comecei a namorar Hugo, um cara mais velho, fino. Não o bisbilhoto, não o vistorio, não dou o perdido no celular dele. Eu simplesmente não procuro o que não quero achar. Somos um círculo virtuoso: quão mais bondoso ele é comigo, menos chata tento ser com ele. Hugo é perfeito. Mas acontece que mais gente também sabe da perfeição do Hugão!, disseram as meninas em meio a gargalhadas, me mostrando o Lulu, o tal aplicativo de dar notas aos meninos. Meu namorado estava lá, estampado com uma nota 8,7 e umas dez avaliações, muitas de mulheres que ficaram com ele. Isso me fez sentir uma ansiedade que eu não tinha mais sentido.

Mulheres que estavam no Facebook do meu namorado e que tinham transado com ele. Mulheres que ele podia contatar o dia inteiro sem que eu soubesse…

Não vou ver isso, pensei. Mas é claro que acabei olhando. E quanto mais eu lia as hashtags positivas dele, mais raiva eu tinha: #DormeDeConchinha, #MãosFortes… Meu ódio aumentando. Esse viado do Hugo deve comer essas cretinas até hoje!, pensei. #TeAmoMeComeAgora, #TrêsPernas, #CaiDeBoca. Cai de boca? Aí, não! Aí já era demais pra mim!

Naquele dia, Hugo foi lá pra casa. Eu já tinha separado um copo do suco de caju, que ele adora, com duas gotas de arsênico que consegui na surdina com um amigo farmacêutico. Ele fez menção de pegar o copo na mesa enquanto conversávamos, mas agi antes e afastei. Resolvi perguntar a ele a respeito, Hugo! Que porra é essa aqui? #SemprePreparado, #HeInventedSex? Ele, sem entender, perguntou do que eu falava. Daí, fui explicar sobre o Lulu etc e ele sorriu meigamente (o filho da puta ficava lindo quando fazia isso), disse que não me conheceu virgem e que teve outras namoradas antes de mim, assim como você, meu amor, ele disse, você também teve outros namorados. Aquilo foi me enervando, me deixando angustiada. Então ele arrematou com um dos seus jargões, tipo poesia de boteco, de que não cabia exclusividade no amor puro. Olhei no fundo do olho dele, enchi meu copo com água de uma jarra que estava em cima da mesa, bebi, baixei a cabeça, tirei meu salto e dei com a ponta na testa dele, que caiu desacordado. Saí. Mas deixei o copo com veneno em cima da mesa. Aquele puto tinha que acordar com sede. E a primeira coisa que tivesse vontade de beber ao recobrar a consciência estaria ao alcance dele. Cachorro!

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