Privatização da Eletrobras: É bom? Pra quem?
Um assunto que tomou a pauta na mídia durante essa última semana foi o anúncio do Ministério de Minas e Energia (MME) que se posicionou em prol da privatização da Eletrobras, mas sem divulgar grandes detalhes de como isso seria feito.
Antes de fazer qualquer julgamento é interessante primeiro entender o que a empresa faz, como está disposta e os mecanismos do setor elétrico brasileiro. Vamos lá?

Eletrobras em números:
A Eletrobras é a maior empresa do setor elétrico da América Latina, e seu core business é focado na geração e transmissão de energia elétrica em todo o país. Conta com cerca de 17 mil funcionários e possui em seu portfólio 233 usinas de geração das mais variadas fontes (hidrelétricas, térmicas, nuclear, eólicas e solar).
Com isso, é responsável pela geração de 1/3 de toda a energia brasileira e quase 50% das linhas de transmissão espalhadas Brasil afora.
Apesar de ser uma empresa de capital aberto, o governo brasileiro é o principal acionista — e controlador — com 51% das ações ordinárias, seguido pelo BNDES com 20%. Em 2016, após 4 anos seguidos de prejuízos que somam cerca de R$30 bilhões, a empresa finalmente voltou a registrar lucro de R$3,4 bi em 2016, enquanto planeja investir mais de R$30 bilhões até 2021.
E qual os aspectos, positivos e negativos, dessa proposta?
No que pesa para o positivo, e enaltecido por muitos economistas, foi a própria reação do mercado após o anúncio do MME. O valor de mercado da companhia subiu R$9 bi, atingindo a marca de R$29 bilhões. Esse é um ponto relevante porque mostra a força que a Eletrobras, apesar de todo o histórico, dívidas e problemas, ainda demonstra ao mercado, que acredita no potencial da empresa.
Com a privatização, a tendência é que haja menos influência política no rumo estratégico da companhia. Em tempos de lava-jato e de um país tomado pela corrupção, onde descobre-se todo dia que empresas estatais eram usadas como arma em um jogo politico para benefício de alguns, esse é sem dúvida um dos pontos de maior apelo público.
Além disso, a expectativa de uma maior eficiência na gestão, passando o controle para o setor privado, economistas e alguns especialistas esperam maior competitividade, rapidez e uma gestão mais enxuta para reacender os motores da empresa. Com a medida, o MME também espera que os preços da conta de energia diminuam no longo prazo [o que cabe bastante discussão].
Do outro lado, é importante ter em mente que o setor elétrico é estratégico e fundamental do ponto de vista de desenvolvimento financeiro, social e ambiental para o país. Tudo ao nosso redor é energia, e qualquer negócio, empreendimento ou residência precisa de eletricidade para se desenvolver e/ou viver de forma digna.. ainda mais na era da eletrificação, movimento global pelo qual estamos passando que leva ao uso mais intensivo da eletricidade, inclusive para o setor de transporte.
E isso é um ponto chave e ainda pouco claro no anúncio já realizado. A princípio, a intenção do governo é continuar com a “Golden share”, que permite direito de veto sob as definições estratégicas da empresa. No entanto, ficaria sem o poder de definir novos programas que valorizam o desenvolvimento social, em detrimento do financeiro, que sabidamente é o drive em uma gestão privada.
Pra provocar.. Alguns pontos que valem a pena refletir com toda essa discussão:
- Um ponto importante e amplamente citado por aqueles que defendem a privatização é a questão da corrupção instaurada em instituições públicas. E de fato, o quadro brasileiro é assustador. Mas a corrupção é feita apenas pelo Estado? Ou a grande ambição do mundo privado também contribuiu com todo esse desfecho?
- A questão de diminuir a influência política é duvidável, tendo em vista o caso dos rumores de que a indicação do novo presidente da Vale tenha tido grande influência do senador Aécio Neves.
- Vivemos em um momento econômico trágico no país, e com isso, o governo busca medidas para reduzir custos. Mas o valor que o governo pretende arrecadar está longe de ser de fato relevante para o fechamento das contas públicas. Será que não existem outros locais para cortes de gastos ao invés de propor perder o controle estratégico do setor de energia brasileiro?
- O resultado negativo de 2012 a 2015 registrado pela Eletrobras foi fortemente causado pela MP579/2012, aprovada pelo governo Dilma. Essa MP antecipou o vencimento de contratos das usinas de todo o país, que acarretou à Eletrobras uma perda de 20% na receita da empresa. Tudo isso motivado pela guerra política e busca por aprovação popular, através da diminuição da conta de energia. A Eletrobras tomou os prejuízos — e por consequência nós, brasileiros, e principais acionistas através do governo — e ainda sofremos com os consecutivos aumentos na conta de luz que ocorreram nos anos seguintes. Mas como teria sido esse episódio caso a Eletrobras já fosse de controle privado?
- A EDF, empresa de distribuição elétrica francesa, é referencia mundial no setor, com um valor de mercado de cerca de US$70 bilhões. Ah, o governo Francês é o principal acionista, com 83% do controle sobre a empresa.
Mas e aí então?
Com as poucas informações e tanta especulação é difícil analisar com cautela os efeitos, benefícios e passivos que a privatização da Eletrobras pode acarretar para o setor de energia brasileiro. Precisamos aguardar mais detalhes reais e menos especulações sobre a proposta.
Mas uma coisa é fato: Eficiência na gestão é o termo da vez. O próprio mercado já deixou claro que acredita no potencial da empresa, e que é possível fazer dar certo com uma gestão séria, eficiente e transparente.
A pergunta que fica é: A Eletrobras consegue dar a volta por cima?
Vamos aguardar os próximos capítulos dessa importante discussão para o nosso país.
Um abraço,
F
