Claire Underwood é a dona da quinta temporada de ‘House of Cards’

Alerta: o texto a seguir contém vários spoilers sobre a nova temporada da série.

Para alguns fãs a quinta temporada de House of Cards começou meio morna, sem aquele ritmo alucinado de intrigas e planos maléficos do então presidente dos Estados Unidos, o protagonista Frank Underwood. Ficou claro, porém, ao decorrer dos episódios, que essa calmaria na verdade fazia parte da construção da história, e que nada mais era do que um recurso de desenvolvimento da personagem Claire, que sempre se destacou em anos anteriores mas que aqui toma definitivamente (ou literalmente?) as rédeas da situação.

A presença dela sempre foi importante, tanto por seu papel na narrativa como nos materiais de divulgação da produção da Netflix, onde ela aparece lado a lado com o personagem de Kevin Spacey. Entretanto, essa ruptura de imagem entre um e outro deu uma outra dinâmica para a trama, que inclusive já foi testada anteriormente.

Na terceira temporada, quando Claire decide abandonar Frank em meio a um turbilhão de acontecimentos políticos, ficou evidente para o espectador que o casal não era tão unido assim e que todo sacrifício investido em troca do almejado poder tinha consequências sérias para ambos.

No novo ano, esse processo foi sendo construindo com mais calma, gerando algumas inseguranças dos dois lados da mesa, muitas vezes em momentos em que nenhuma palavra era dita, ficando tudo subentendido no olhar de Robin Wright e de Spacey, em atuações mais uma vez assombrosas (no melhor sentido da palavra).

As suspeitas e desconfianças das intenções da esposa conforme o enredo avançava foram deixando Frank assustado com a possibilidade de ver sua maior aliada tornando-se uma rival. O fato de que ela o conhece como ninguém e saberia como atacá-lo da pior forma possível o deixou em alerta em diversos momentos da reta final.

A tática de colocar Claire quebrando a quarta parede e entrando em contato direto com o público em momentos chave da história foi genial para mostrar de forma bem prática o quanto a alternância de poder era presente, além de evidenciar também a possibilidade de que o jogo fosse virar a qualquer momento.

A personagem inclusive foi além das maldades de Frank no momento em que descartou sem ressentimentos uma pessoa importante de sua vida. Ele já havia matado várias vezes para conseguir o que queria, mas em momento algum a pessoa assassinada foi fundamental para sua vida ou foi fruto de um sentimento maior. Claire sim chegou a esse nível obscuro, provando talvez que sua ambição se sobressaia até à do marido.

O gancho deixado ao final do último episódio mostra que essa inversão de poderes pode ser mais definitiva na próxima temporada, o que abre infinitas possibilidades para a narrativa brincar com o antagonismo gerado agora que o protagonista encontrou finalmente um rival à altura ou quiçá ainda pior que ele. Vai dizer que aquele último take, com a personagem olhando diretamente dentro da sua alma, não te rendeu uns calafrios?

Texto originalmente publicado pelo site Café Radioativo