Toda temporada de ‘House of Cards’ é a melhor temporada de ‘House of Cards’

São poucas as séries que fazem jus ao hype que recebem tanto da mídia quanto do público, e House of Cards definitivamente faz parte desse seleto grupo. A adaptação da Netflix ao livro de Michael Dobbs gera muita conversa desde a sua primeira temporada, e essa atenção toda está totalmente à altura da qualidade do material apresentado e dos nomes envolvidos em sua criação.

É incrível como a produção consegue simplificar para o público de qualquer lugar a aparente complexidade do sistema político norte-americano ou do processo eleitoral desenvolvido pelos Estados Unidos. Um roteiro bem elaborado é a chave principal para tal feito, mas a ajuda de personagens carismáticos reforçam ainda mais a ideia.

Mesmo odiando o Frank Underwood e suas maquinações para chegar ao poder, nos pegamos torcendo para que todos os seus planos deem certo e que seus inimigos sejam derrotados. A atuação genial de Kevin Spacey e a tática do programa de quebrar a quarta parede, fazendo com que o protagonista converse diretamente com o espectador, olho no olho, resultam numa empatia estranha e quase pecaminosa com o anti-herói.

Nossa ambição enquanto público cresce conforme a ambição de Frank também cresce. Se o primeiro passo era conquistar a presidência dos Estados Unidos, ao chegar lá nem ele nem nós nos demos por satisfeitos, ainda havia alguma coisa a se fazer, alguns tapetes para serem puxados, alguns degraus acima, mais história para ser contada. E mesmo que no fundo surja um sentimento de culpa por estarmos apoiando um comportamento tão ruim, nos respaldamos livremente no fato de ser uma simples obra de ficção. Ou não?

Antes da estreia dessa nova temporada, parte do elenco havia dado entrevistas citando as incômodas semelhanças entre situações absurdas mostradas na série e momentos reais a partir da eleição do presidente Donald Trump. A triste realidade em que vive o povo americano acaba servindo como um prato cheio para a história ficcional, que nem precisa ir muito longe para encontrar inspiração, e é isso que faz esse quinto ano tão especial, seu poder em dialogar com o presente. Os reflexos da vida real na narrativa também eram a proeza das temporadas passadas, ou seja, cada uma tem sua importância de acordo com o panorama em que é lançada.

Essa capacidade em jogar na nossa cara o quanto não sabemos nada do que acontece por debaixo dos panos, dos interesses pessoais de cada envolvido em escândalos públicos ou nas relações de poder, nos fascina. É admirável que a série consiga ser surpreendente para um grupo de espectadores como o brasileiro, por exemplo, num país em que tramóias e reviravoltas políticas acontecem constantemente, mas a produção consegue essa façanha, e muito bem.

Olhar pelo buraco da fechadura fantasiosa dá ao público uma falsa ideia de conhecimento sobre o que acontece de verdade, seja na Casa Branca, seja no Palácio do Planalto, e é aí que é revelado o poder de uma história bem contada. Aprendemos com ela a ficarmos mais atentos, a desconfiar da boa vontade de gente que no fundo não se importa com mais nada além do sucesso deles mesmos, e isso tudo enquanto nos entretemos.

A quinta temporada de House of Cards é “a melhor temporada de House of Cards“. A sexta também vai ser. Enquanto essa necessidade humana voyeurística prevalecer, todas as próximas temporadas serão melhores, conforme o tempo permitir. A torcida é a de que a realidade nunca supere a ficção, pelo menos aqui, assim como o carisma dos caras maus também não chegue ao nível Underwood. Fora da série é preferível torcermos para os mocinhos.

Texto originalmente publicado pelo site Café Radioativo