Todo mundo tem direito à liberdade, só a bailarina que não tem

Por Gabriela Ferrarez Figueiredo

Fotos de Adelaide mais jovem, com o irmãos, com a família e a última carta do pai.

“Pode me fazer qualquer pergunta, mas eu respondo o que eu quiser!”

Das lembranças de sua infância, ela se recorda do pai construindo o caixão do irmão, filho de outra mulher que havia morrido ainda bebê. Lembra bem isso, pois não conseguia sair do lugar enquanto assistia à cena. Somava cinco anos e ainda não tinha aprendido a andar. Enquanto conversa, Adelaide Maria Nascimento passa as mãos na cabeça, falando dos buracos que ainda sente no crânio, devido aos choques contra a calçada, toda vez que a madrasta explodia em fúria.

Suas histórias lembram as de um pássaro cujas asas eram podadas sempre que tentava alçar voo. Adelaide perdeu a mãe quando tinha seis meses, ainda bebê. Lutou para conseguir a própria liberdade diante das responsabilidades que já pesavam precocemente sobre os seus ombros.

Aos 69 anos, com a postura ereta, cabelos presos e olhos expressivos, Adelaide relata o dia em que apanhou do pai. Ela era inocente. Enquanto alisa o vestido rodado com a mão, conta sobre o dia em que fugiu de casa, de como o pai foi induzido pela madrasta a pensar que ela estava fugindo com um homem e foi atrás da filha, furioso.

Com os olhos já marejados, lembra-se do pai puxando a cinta e gritando:

- Pede perdão!

­­­- Perdão pai! Perdão pai! Perdão pai — implorava repetidamente na frente de toda a família.

­­­- Toma aqui teu perdão! — O afinco com que o pai batia aumentava na medida em que a menina suplicava.
 A dama que se portava como uma bailarina, fala imitando os movimentos que fazia, debatendo-se na tentativa de afastar o braço que insistia em ferir. Enquanto as lágrimas escorrem pelo rosto, os olhos refletem a menina de dez anos, que pediu o perdão do pai e não recebeu. Fitando a parede, enxergava o rosto do inquisidor, enfrentava novamente as lembranças que construíram sua história. O último “Perdão pai” soa fraco, o tom desistente de uma pessoa cujas forças já se esvaíram. Quando pela primeira vez, depois de começar a contar, ela olha em meus olhos; é como se voltasse à realidade, mas ainda interroga o passado: “Por que ele não me perguntou por que eu fugi?”

As cinco crianças, filhas da primeira mulher do pai de Adelaide, migravam de casa em casa. Os pais as mandavam trabalhar em toda família que necessitava de uma babá, cozinheira ou faxineira. Ela se recorda de todos esses lares. No entanto, a saída da própria casa é a que lembra com mais clareza. Hoje, a bailarina está com os cabelos perfeitamente penteados, mas na data em que a desconhecida veio, estava encharcada por causa da lavação das roupas da família. A senhora, para ela uma estranha, segundo o pai era uma prima distante que os visitava.

-­­­ Pai, dá a Laide pra mim? — disse a prima estranha.

-­­­ Leva.

Dividida entre o desapontamento em relação à indiferença do pai e a esperança de uma nova vida, Adelaide saiu de casa aos 14 anos. Arrumou as poucas coisas que tinha e partiu. Ao chegar em Ituporanga, cidade onde moraria dali para frente, foi tomada por uma profunda tristeza. A prima questionou se ela gostaria de voltar. Anos depois, a lembrança ainda emociona. “Mesmo querendo dizer sim, eu disse não, que apesar de tudo era pai, né, eram meus irmãos“, declarou lacrimejante, mas corajosa. Honrou a decisão, não por orgulho, mas pela determinação de enfrentar a saudade em nome da liberdade, que, como um pássaro, lutava para conquistar.

***

Na tentativa de tomar as rédeas da própria vida, Adelaide casou aos 16 anos. Buscava se refugiar do pai e da madrasta, mas aparentemente apenas trocou de carrasco. Já casada, voltou à vida escolar, sonhando em se tornar professora. Com frequência, o marido, que fazia pouco caso de seus esforços, tentava impedi-la. Sem perder a motivação, trabalhava no período matutino, e à noite estudava. “Eu sofri bastante, mas não passei isso para meus filhos”, se orgulha. Nesse momento, a barra do vestido da bailarina poderia proteger os dois filhos de todo o mal que tentasse afetá-los.

Tudo começou a desmoronar quando o marido sofreu um acidente que afetou o cérebro. Em estado de demência, andava de quatro e rabiscava em papéis acreditando que escrevia palavras com significado. Adelaide tentou, ela jura. Suportou até onde pôde, carregou o marido nos braços quando ele perdia o equilíbrio; explicou que os riscos não faziam sentido algum. Cuidou até onde a mente suportou. Pois então, a mente cedeu.

Alexander Lowen, psicanalista estadounidense, compara a depressão a um violino. Se está em bom estado, o violino toca desde as músicas mais contagiantes até as mais melancólicas. Faz parte. Porém, quando enfraquece suas cordas, não é capaz de tocar coisa alguma. O violino cujas cordas não soam nem mesmo a ciranda mais simples, perde o sentido da existência. Adelaide era o violino.

Começou durante a doença do marido, e mesmo após sua recuperação, permaneceu. Dessa vez, o pássaro podava as próprias asas. Martirizava seus pulsos, ia aos poucos abdicando do desejo de voar. A ingratidão do marido surgia em todas as discussões que se tornavam mais frequentes. Ele a abandonava no quarto dormindo, trancava a casa inteira com a esposa dentro, achava melhor deixá-la quieta.

“Uma vez eu tentei me matar”. Com a mesma sutileza de um tiroteio no meio do culto, Adelaide inicia o relato do dia em que chegou ao limite.

A bailarina tomou os remédios, dessa vez todos eles e todos juntos. Adormeceu. Lembra-se apenas do telefone tocando, fazendo-a despertar. Era Valdeci, que trabalhava na cantina do colégio.

- Por que não viesse mais para o trabalho, mulher? — interrogou a amiga.

- Como assim não fui? Estava dando aula ontem! — respondeu Adelaide.

- Mulher, faz uma semana que você não aparece.

Em coma por uma semana, o marido não notou que a mulher dormia dias a fio. Seguia sua rotina, descansava em casa, e quando saía para o trabalho tomava o cuidado de trancar toda a casa. Diante da indiferença daquele que desonrou a belíssima jura do casamento “Na saúde e na doença”, Adelaide se torna o pássaro negro de Paul McCartney, que recolhe suas asas partidas e aprende a voar. Nesse momento, seu queixo se ergue e os olhos são tomados por uma força que parece não vir da mesma mulher que há poucos instantes chorava. “Ele não merece a minha vida, ninguém merece.”

A bailarina não fez nada mais do que cumprir o destino do nome que a define. Começou a dançar. Na tentativa de recuperar o casamento dos dois, a irmã sugeriu que fossem ao Centro de Atendimento à Terceira Idade (CATI). Lá, Adelaide jogava cartas, aprendia as coreografias na aula e ia em bailes com as amigas para se divertir. Toda vez que recebia uma cantada de algum homem dizia de imediato: “Sou casada!”. Mesmo amarrada a um casamento de fachada por mais de 15 anos, Adelaide mantinha o respeito, mas a recíproca não era verdadeira.

Puta, vagabunda, quem você pensa que é para ir em bailes? Começou assim. Até que um dia, o marido quebrou-lhe um dente com um soco, em um dos momentos de fúria. Ela não voltou atrás, não abaixou a cabeça. O pássaro se libertou da gaiola. Aos 64 anos, a bailarina pediu o divórcio.

***

Os dois maiores sonhos realizados: sair daquela vida, o maior e mais ambicioso deles; e morar em Florianópolis, pois desde criança ouvia falar sobre a ponte Hercílio Luz e desejava atravessá-la. Conseguiu, um pouco antes dela ser desativada. Adelaide não conta as histórias tristes com rancor, longe disso. Ela apenas reconhece o passado como parte essencial da mulher que se tornou. Enquanto dança, apesar de concentrada, conversa descontraída com os amigos. Ela é dona da risada mais alta e do sorriso mais largo.

A bailarina pega a última carta que seu pai lhe enviou, sua herança mais preciosa. Apesar do conteúdo ser aparentemente irrelevante, enquanto Adelaide passa os dedos sobre a carta, escrita por um trabalhador com a gramática precária, de alguém que se alfabetizou tardiamente, seus olhos transbordam nostalgia. Através deles, relembra os momentos bons. Fala sobre o prazer toda vez que o pai pedia para os filhos lhe arrancarem os cabelos brancos sobressalentes e do anseio para o pai chegar de viagem e pedir para que lavassem seus pés calejados. Isso é carinho também. “Era o carinho dele.” Sorri, como se tentasse explicar. Deixa claro que apesar de não esquecer, não sente raiva do pai, da madrasta e do marido. O pássaro é livre agora.

No momento em que pega a foto dos cinco irmãos reunidos, recorda-se da irmã mais velha, já falecida. Os olhos embaçam. “Nós éramos um só”. Narrou todas essas histórias, mostrando as fotos dos filhos, motivo de seu maior orgulho. Quando acha uma imagem da casa, fala sobre o esforço que fez para obtê-la. “Tem sangue naquelas pedras”. Ela comenta sobre como se apega ao seu anjo da guarda e como busca força em Deus. Das suas conquistas, das coisas que possui e das pessoas que cativou, a bailarina crê que todo o trabalho árduo valeu a pena.

Não que os obstáculos tenham deixado de surgir, repete. Longe disso. Apenas agora pode encarar suas dificuldades da mesma forma que encara o passado, como uma velha companheira. Descrita pelos amigos como divertida e brincalhona, quando entra no salão, rodopia com qualquer pessoa, garante! Altiva enquanto dança, Adelaide tem os passos leves, segundo ela, herança do pai. Pretende aperfeiçoar o samba e o tango. A bailarina rouba a cena agora.

Apesar de separada, ainda divide a casa com o ex-marido. Vai aos bailes e namora com um homem que beija-lhe a mão ao final de cada dança. Mesmo nos passos da valsa, transpassa sua independência, mostrando que apesar de algumas coreografias ficarem belas quando realizadas com um parceiro, ela é protagonista. Nesse momento, se sua vida se resumisse a um espetáculo, o solo da bailarina seria a atração principal. Os olhos muitas vezes traduzem o sofrimento que passou. Mas acima disso, é a vida de um pássaro feito de vitórias, e essas sim, coreografaram sua história e são motivo do sorriso que estampa. Adelaide é feliz agora. Apesar de tudo, amor.

“Os olhos muitas vezes traduzem o sofrimento que passou. Mas acima disso, é a vida de um pássaro feito de vitórias, e essas sim, coreografaram sua história e são motivo do sorriso que estampa. Adelaide é feliz agora.”

Adelaide está rindo, no meio do salão de dança, cercada de amigos.

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