Umberto Eco e o fascismo de Trump

Recentemente fui criticado por chamar Donald Trump de fascista. Aparentemente eu seria uma de três coisas: desinformado, desonesto ou mentiroso. Hoje, após ter lido muito sobre fascismo, vou deixar outra pessoa defender minha tese.

Umberto Eco foi um escritor e filósofo italiano que nasceu em 1932. Ele cresceu sob o regime fascista de Benito Mussolini. Ele sabia o que foi o fascismo, pois o conheceu bem de perto. Anos atrás ele escreveu esse texto falando sobre o fascismo e pontuando 14 características fascistas. Recomendo fortemente a leitura.

É importante começar dizendo que Eco entende que o termo fascismo teve seu uso expandido além do regime de Mussolini desde muitas décadas atrás. É o que ele chama de Ur-Fascismo, ou Fascismo Eterno, que se trata do entendimento do fascismo como um conjunto de características que tem uma base arquetípica no regime de Mussolini. Regime esse, por sinal, que Eco considera não ter bases filóficas firmes, diferentemente do Nazismo, o que torna sem sentido a defesa do uso purista do termo.

Mas o exercício que quero propor nesse texto é testar se as ideias e práticas de Donald Trump, que está há pouco mais de uma semana governando os Estados Unidos, se encaixam nas 14 características fascistas elencadas por Eco. Vamos lá:

  1. O culto à tradição: a primeira característica fascista é o culto à tradição. Esse é um ponto no qual nem precisamos perder muito tempo, basta ir até o mote da campanha de Trump, “Make America Great Again”. Fazer a América Grande de Novo remete à uma tradição americana do passado, que foi soterrada pelos liberais da Era Obama. Essa é a mensagem por trás de uma frase tão simples. Mais tradicionalista impossível.
  2. Rejeição à modernidade: notem que aqui a modernidade rejeitada não diz respeito aos avanços tecnológicos americanos, mas à tudo que “atrapalhe” esses avanços. Isso é facilmente observado na negação de Trump aos efeitos do aquecimento global e ao descaso com a comunidade científica. Uma de suas primeiras medidas foi ordenar que a Agência de Proteção Ambiental removesse de seu site dados sobre o aquecimento global e já anunciou que fará todos o possível para romper o acordo climático de Paris.
  3. Culto da ação pela ação: o irracionalismo do ponto 2 nos leva a esse aspecto do fascismo: o desdém por pensadores, artistas e cientistas. O pensamento crítico e analítico é tido como perda de tempo, apenas a ação é valorizada. Aqui podemos citar tanto a diretriz de que os dados sobre aquecimento global só poderão ser liberados ao público fora dos meios científicos oficiais após serem aprovados por apontados políticos de Trump quanto o desdém que ele mostra à classe artística, como quando, após ter sido criticado por Meryl Streep, chamou a atriz ganhadora de dezenas de prêmios de superestimada.
  4. Desacordo é traição: Trump e seus acessores chamam a mídia repetidamente de mentirosa, as notícias de falsas e classificam as denúncias como injustas. As grandes marchas que tomaram as ruas no dia após sua inauguração foram criticadas e ironizadas pelo presidente no Twitter. As evidências fotográficas de que o público em sua posse foi menor do que nas de Obama foram combatidas ferrenhamente, e quando explicações foram cobradas da Casa Branca pelas inverdades ditas pelo Secretário de Imprensa, uma conselheira de Trump disse que não foram mentiras mas sim “fatos alternativos”. Nenhuma oposição é válida ou justa, tudo pode ser refutado, não importa o quão ridícula seja a refutação, nem o quão fácil seja desmenti-la.
  5. Medo da diferença: Essa é fácil. O muro que será erguido no México é só o começo. Trump instaurou um banimento a muçulmanos do Irã, Iraque, Síria, Yemen, Sudão e Líbia. Pessoas com green card, que moram e trabalham nos Estados Unidos há anos e estavam fora do país foram barradas na entrada e deportadas. Notem que Turquia, Egito e Arábia Saudita não estão incluídos nesse banimento; a família Trump tem laços de negócios nesses países. A diferença não é tolerada, menos quando há interesses econômicos envolvidos: uma base filosófica nebulosa que remete ao fascismo clássico.
  6. Apelo à frustração social: em seu discurso inaugural Trump disse: “Os homens e mulheres esquecidos de nosso país não serão mais esquecidos. Todos estão ouvindo vocês agora.” Com isso Trump se usa da frustração que os setores reacionários da sociedade alimentam ao criticarem avidamente qualquer programa de apoio ou inclusão social. A população em geral se sente esquecida e frustrada, e a partir daí é fácil se aproveitar disso. Fascismo by the book.
  7. Obsessão com uma trama: comecemos esse tópico com outra fala de Trump: “Nós vamos ter que resolver isso, não podemos viver desse jeito. Vai ficar pior e pior, nós teremos mais World Trade Centers. Vai ficar pior e pior, gente. Não podemos ser politicamente corretos e não podemos ser estúpidos mas vai ficar pior e pior.” Apenas essa fala já mostra como ele gosta de criar narrativas para justificar seus feitos, no caso dessa fala as medidas de banimento citadas acima. Adicionemos a isso outras trama como as acusações infundadas de que Obama não teria nascido nos Estados Unidos, ou dizer que as pessoas protestando eram profissionais pagos pela mídia. Sem falar em sua obsessão por supostas fraudes nas votações.
  8. Seguidores devem se sentir humilhados pela riqueza e força de seus inimigos: mas, ao mesmo, devem sentir que eles são fracos o suficiente para serem derrotados. Ao se sentirem oprimidos pelos seus inimigos nasce a raiva que leva ao desejo de os derrotar, e é daí que vem a xenofobia e intolerâcia. Trump fez isso com os muçulmanos, como mostra a fala a seguir, que além de tudo generaliza todo muçulmano como terroristas: “Nós temos um inimigo no Oriente Médio que está cortando cabeças e afogando pessoas em grandes celas de metal, OK? Nós temos um inimigo que não age segundo as leis. Você pode citar leis, e eles estão rindo. Estão rindo de nós bem agora.
  9. Pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente: Trump vive atacando e denegrindo pessoas no Twitter. Ele nunca busca entendimento mútuo ou reconcialiações. Não há motivos para esperar que ele aja com motivações pacifistas nem no cenário interno dos Estados Unidos nem no cenário mundial. Os militares são uma de suas prioridades, e ele já anunciou que quer fazer um plano para derrotar o ISIS o mais rápido possível. Em suas próprias palavras: “Eu vou construir uma força militar que será muito mais forte do que é agora. Ela será tão forte, ninguém vai mexer conosco.
  10. Elitismo popular: tudo foi melhor na campanha de Trump, e os Estados Unidos é o melhor país do mundo, seus eleitores são os melhores eleitores, a indústria americana é a melhor indústria, os militares americanos são os melhores, tudo é o melhor e tudo é grande e ótimo. Já deu pra entender né?
  11. Todos são Educados para serem heróis: “Eu sou sua voz, disse Trump. “Apenas eu posso arrumar isso. Eu vou restaurar a lei e a ordem.” Trump se coloca num patamar de salvador da América, e como o único capaz de fazer isso. Mas Eco alerta que o culto ao heroísmo é também o culto à morte, a avidez por ser um herói ainda que se colocando em risco; entretanto o líder nunca entra de fato em risco, mas coloca outros para fazê-lo. Isso nos leva diretamente às suas falas sobre os militares e a destruição dos inimigos. Se Trump for à guerra, ele será o herói, mas não sangrará.
  12. Machismo: a misoginia de Trump ficou clara conforme sua campanha progrediu. Os vários casos de repórteres o denunciando, a infame conversa com Billy Bush (na qual ele fala que por ser um astro pode fazer o que quiser e elas não fazem nada, é só agarrá-las pela b*****), e até mesmo os inconvenientes flertes com Luciana Gimenez quando a brasileira o entrevistou deixam isso bem claro.
  13. Populismo qualitativo: lembram do “Eu sou sua voz”? Trump se coloca como a voz do povo, como se através dele fluísse a verdade que vem do próprio povo, e ele faz isso legitimando apenas a parcela do povo que chama de “homens e mulheres esquecidos”. Embuído dessa autoridade toma atitudes autoritárias até em áreas nas quais não tem qualquer conhecimento (censura de divulgação dos dados do aquecimento global, por exemplo). Apenas ele é confiável. Fica a dúvida e a expectativa de qual será a atitude dele quando, eventualmente, o parlamento ou o judiciário americanos barrarem alguma de suas ações.
  14. Novilíngua: esse ponto diz respeito ao uso de uma linguagem direta e simples como forma de limitar o raciocínio crítico. Esse fato é evidenciado pelos seguidores de Trump dizerem que ele “tells it like it is”, ou seja, fala as coisas como são, de forma clara, sem explicações complicadas. É claro que suas explicações simplistas serem meias verdades ou simplesmente mentiras fogem à percepção de quem se deslumbra pelo bom e velho senso comum. O discurso de Trump é sempre lotado de adjetivos (grande, incrível, falso, mentira, injusto) usados como classificação final e indiscutível dos pontos de que trata.

Trump se encaixa incrívelmente bem nos 14 pontos elencados por Umberto Eco. É um fascista e não vejo motivos para não chamá-lo de tal, mas o mais importante de toda essa reflexão, para nós brasileiros, é avaliar nossos próprios políticos, em nível municipal, estadual e federal. Pense nos discursos e falas dessas pessoas, analise suas ações e posturas.

Não precisa ter os 14 pontos acima, mas se você identificar vários deles, não basta não votar nessa pessoa, mas sim tentar conversar com as pessoas ao seu redor que gostam dela ou dele, e fazê-los entender o quão perigosa esse tipo de posição política é. O mundo está deixando muitos desses fascistas ascenderem a altos postos, não podemos deixar que isso aconteça no Brasil. Ao menos não calados.

Finalizo esse texto com uma citação direta do artigo de Eco linkado no começo (e mais uma vez recomendo fortemente a leitura dele todo):

Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo.

Originally published at Lucas Ferraz.